Delfim Netto
Delfim Netto
O efeito devastador
O maior disparate que pode acontecer nesse momento é o governo insistir em ameaçar a sociedade com a elevação das taxas de juro, como instrumento hábil para evitar uma eventual recidiva da inflação. Alguns importantes membros do governo andaram falando demais naquela direção, sem perceber que a realidade da inflação é muito menor do que o medo que eles revelam diante das caretas dos agentes do mercado financeiro.
O próprio presidente da República chegou a ensaiar uma ameaça de elevação dos juros, mas rapidamente percebeu que estava embarcando numa canoa furada e explicou que o objetivo da política continua sendo o crescimento econômico e o que se deseja é que os preços não subam para que os juros possam cair mais rapidamente.
Não podemos imaginar que a atual taxa básica de juros do Banco Central de 19% ao ano, é adequada para o bom funcionamento de qualquer economia, até por que ela se refere aos papéis do governo. O setor privado continua pagando uma juro real da ordem de 30%, quando o cliente do banco não tem nenhum problema de crédito, o que hoje não é fácil de encontrar. O fato é que nenhuma economia pode funcionar na direção do crescimento e da maior oferta de empregos com taxas dessa natureza.
Onde está o erro dos economistas que defendem a alta dos juros nesse momento sob pretexto de conter a alta dos preços? Só poderíamos ter um efeito forte nas taxas de inflação se estivéssemos ameaçados por alguma pressão de demanda, o que não é o caso, dados os altos níveis de desemprego e a própria queda do salário real. Ou se tivéssemos a economia ainda presa à indexação, particularmente à indexação salarial. Isso não está acontecendo, de nenhuma maneira.
Todos queremos a volta do crescimento econômico, sem inflação. Certamente não haverá pressão inflacionária do lado do consumo, pelos fatores já apontados. Também não virá dos investimentos privados, que estão contidos por causa das elevadas taxas de juros, nem tampouco dos investimentos públicos, que estão bastante moderados.
Da mesma forma parece exagerado o receio que a expansão das exportações possa gerar maiores problemas para a inflação. Se aumentarmos as exportações em US$ 10 bilhões ou US$ 12 bilhões anuais, teríamos um efeito sobre a demanda correspondendo a uns 2% ou 3% do PIB, o que certamente não é suficiente para provocar uma alta generalizada nos preços internos, diante da enorme disponibilidade de fatores de produção (trabalho, capital etc.).
O que é realmente importante é separar os interesses do mercado financeiro do mercado de bens, entendendo-se o mercado de bens como aquele que produz parafusos, máquinas, roupas, sapatos etc. É esse mercado de parafusos que produz os bens que enriquecem a sociedade, enquanto o mercado financeira se enriquece com a volatilidade nas taxas de juro ou nas taxas de câmbio.
O mercado de bens prospera com a estabilidade enquanto o outro vive da instabilidade, volatilidade. Nós temos, portanto, de cuidar dos problemas da produção física e o último instrumento que devemos usar é alta dos juros, ainda que ela seja aceitável para os banqueiros.
Já usamos demais esse instrumento e agora chega, porque seus efeitos são devastadores: ele não apenas reduz a demanda ao cortar empregos e salários, como piora o endividamento das empresas e do governo que já é extremamente elevado.
- ANTONIO DELFIM NETTO é deputado federal pelo PPB-SP e presidente da Comissão de Fiscalização e Controle da Câmara Federal





