Delfim Netto





Definindo rumos para o Brasil
Tenho procurado mostrar, nesses meus comentários, que as perspectivas da economia brasileira são hoje extraordinariamente melhores do que há um ano, quando ainda estávamos presos à armadilha cambial e com o nosso setor produtivo manietado pelas maiores taxas de juros do universo. Atravessamos o último ‘‘Réveillon’’ num clima de absoluto desânimo que resvalou para a sinistrose nos meses de janeiro e fevereiro de 1999, estimulada pelo coro das viúvas da âncora cambial.
Não aconteceu nada de sinistro, para desespero das viúvas. Não houve a explosão inflacionária e também não tivemos a vertiginosa queda do Produto Interno Bruto (PIB) que se anunciava. Ao contrário, aos poucos foram ressurgindo algumas condições para a recuperação da economia, devido à queda das taxas de juro e à possibilidade de redução dos saldos negativos no comércio exterior.
O nosso déficit comercial se reduziu significativamente em relação ao ano anterior (de US$ 6,4 bilhões para cerca de US$ 1 bilhão) e a taxa de juro básica do Banco Central foi cortada pela metade. Após a correção da política cambial, as exportações poderiam ter se revitalizado, na medida em que as empresas tivessem tido maior acesso ao crédito em condições que lhes permitissem enfrentar a dura competição no comércio mundial.
Faltou apoio oficial para a reconstrução do capital de giro do setor exportador. Não houve o engajamento esperado das agências governamentais (Banco do Brasil, BNDES) e o resultado é que deixamos de aproveitar a oportunidade de avançar na solução do problema mais complicado de nossa economia que é o desequilíbrio nas contas externas.
Não podemos pensar em eliminar o déficit comercial pela via de contenção das importações, pois precisamos, aqui no Brasil, de desenvolvimento e não de estagnação econômica.
O nosso problema é de receita de exportações e não de dispêndio nas importações. Somente com robustos superávits comerciais poderemos alcançar o objetivo do crescimento sem ampliar o constrangimento externo, honrando o pagamento de juros e as amortizações da dívida externa e atendendo às necessidades de remessas de lucros e dividendos em ritmo crescente nos próximos anos.
As perspectivas de recuperação da economia brasileira são melhores, mas devemos continuar cobrando do governo federal o seu total engajamento no esforço para estimular a produção e as exportações.
Esse estímulo depende da redução das taxas de juro e do aumento da oferta de crédito. A interrupção recente do movimento de queda dos juros não foi uma decisão feliz do Banco Central. Satisfez as expectativas do setor financeiro, mas trouxe desalento aos setores produtivos.
Na próxima reunião do Copom, o governo terá que mostrar qual é efetivamente sua opção preferencial: se pretende sustentar os altos juros que mantêm a economia estagnada ou se vai atender às expectativas dos setores produtivos que respondem pelo crescimento da produção e das exportações.
- ANTONIO DELFIM NETTO é deputado federal pelo PPB-SP e presidente da Comissão de Fiscalização Financeira e Controle da Câmara Federal

mockup