Campo e praia
Já perdi a conta de quantas vezes, neste espaço, reclamei da falta de empenho do governo na execução de políticas que promovam a recuperação de duas atividades vitais de nossa economia: a agricultura e as exportações. Esses dois setores foram submetidos a um processo de maceração e de descapitalização durante 50 longos meses, até janeiro do ano corrente, quando finalmente foi desmontada a armadilha cambial, permitindo a flexibilização da política de juros e a inversão de seu permanente viés de alta.
Desde então, agricultores e exportadores passaram a viver a expectativa de demonstrações práticas de que teriam suporte oficial para investir na produção e na prospecção de oportunidades comerciais no exterior. A realidade, no entanto, é que nesses dez meses decorridos o governo tem agido com enorme timidez, operando sem o sentido de urgência necessário para acelerar o processo de recuperação da economia.
No caso da agricultura, deixamos de atender às expectativas dos produtores que desejavam adquirir novos equipamentos que lhes permitisse ganhos de produtividade e sequer se providenciou a disponibilidade do crédito para o plantio, em tempo hábil para o melhor planejamento da produção.
É um erro que vem se repetindo melancolicamente ano após ano, frustrando a vontade dos agricultores de produzir mais e melhor e com isso reverter o longo processo de descapitalização e de erosão patrimonial a quem tem sido submetidos.
Com circunstância agravante que talvez não esteja sendo bem avaliada: o clima seco desta primavera já afetou as pastagens, reduziu as colheitas de feijão e milho e está atrasando o plantio da safra do verão 1999/2000, o que significa que corremos o risco de quebra da produção de alimentos para o ano que vem.
Por enquanto, a leve vingança da agricultura atingiu moderadamente os preços da carne, do milho e do feijão, mas os riscos estão aumentando e não acendeu nenhuma luz vermelha em Brasília. Ainda há tempo para mobilizar o Banco do Brasil e determinar às agências do interior que façam um pouco mais do que oferecer sonhos virtuais de riqueza em sorteios de títulos de capitalização. E substituam essa rotina pelo suporte à dura realidade da produção de alimentos.
Ultimamente, o banco está mais interessado em financiar cruzeiros marítimos no exterior e esportes de verão. Tudo bem. O que não é aceitável, porém, é o banco virar as costas aos agricultores, sob a alegação de carência de recursos. É do suor do agricultor, o ano inteiro, que saem os recursos que garantem o lazer ‘‘al mare’’ e o suor dos esportistas praianos.
No que diz respeito às exportações, apesar do ceticismo das viúvas da âncora cambial, o novo regime de flutuação já produziu um aumento no volume de vendas em setores mais ativos no comércio exterior, como as indústrias de calçados, de tecidos e papel e celulose.
Mas o setor, como um todo, ainda está longe da recuperação depois do enorme estrago que sofreu. E é o governo que tem que apressar essa recuperação, como reconheceu em recente entrevista o presidente do Banco Central ao afirmar: ‘‘A grande discussão no caso das exportações é como capitalizar o dinheiro. O dinheiro para o exportador médio e grande existe e está disponível. O que nós queremos fazer no governo agora é trabalhar para ter mais linhas disponíveis para o pequeno exportador. É parte da mudança de cultura do País fazer com que as pessoas pensem que exportar é uma alternativa boa...’’
Na realidade, essa cultura nunca deixou de existir. O que aconteceu é que o forte e dinâmico setor exportador brasileiro, construído ao longo de algumas décadas por milhares de empresas pequenas, médias e grandes, quase foi destruído pela política cambial dos anos 1994/1998. Uma política dominada por um viés ideológico que não lhe permitia enxergar a ‘‘alternativa boa...’’
- ANTONIO DELFIM NETTO é deputado federal pelo PPB-SP e presidente da Comissão de Fiscalização Financeira e Controle da Câmara Federal

mockup