Delfim Netto
Para não passar vergonha
O setor agrícola foi o que mais sofreu as consequências do longo castigo imposto à economia brasileira pelas insensatas políticas de valorização cambial e de elevação das taxas de juros a níveis estratosféricos. Nos últimos quatro anos, a renda dos agricultores despencou de ponta cabeça, para usar uma expressão corrente do nosso meio rural.
A esse respeito, a Folha de S.Paulo do dia 10 publicou uma análise muito cuidadosa, feita pelo ilustre professor Fernando Homem de Mello, da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo, mostrando o quanto a agricultura vem sendo penalizada desde a abertura comercial indiscriminada no início dos anos 90 e pelas políticas de juros e câmbio do Plano Real, no período de 1995 a 1998.
Na presente década de acordo com o estudo abrangendo os 19 mais importantes produtos vegetais e quatro da produção animal os preços agrícolas caíram 32,5%. Em valores absolutos, comparando-se os períodos 89/94 e 95/98, a agricultura teve uma perda de renda de R$ 15,1 bilhões.
Um indicador importante apresentado pelo professor Homem de Mello refere-se à comercialização de equipamento agrícola, que reflete o avanço (ou atraso) no processo de modernização da agricultura. As indústrias de tratores e implementos vendiam 34,8 mil unidades por ano, em média, na década de 80. As vendas caíram para 21,2 mil unidades em média no período 90/94 e para apenas 16,3 mil ao ano de 1995 em diante.
São indicadores que mostram a necessidade do governo alterar radicalmente seu comportamento em relação à agricultura. Desde 1994, todos sabíamos que a agricultura estava sendo submetida a um arrocho extremamente grave, dada a valorização do câmbio e a elevação dos juros. Foi através desses mecanismos que se transferiam recursos da agricultura para o setor urbano onde se tinha a impressão que tudo estava indo muito bem.
É visível que a agricultura se descapitalizou, que os agricultores empobreceram de maneira assustadora e hoje estão pagando o preço da liquidação de seu capital de giro. Um exemplo desses fatos nos é dado no singelo (e trágico) depoimento do lavrador paranaense Leonino da Silva, na mesma edição da FSP. Até 1996 proprietário de 42 hectares no Vale do Ivaí, onde plantava algodão e feijão com a ajuda dos quatro filhos e hoje bóia-fria, ele bem representa milhões de outros agricultores cuja experiência está refletia nas frias estatísticas acima.
No Plano Collor depõe Leonino tive que recorrer a empréstimos para tocar a lavoura, já que tive o dinheiro retido no banco. Mas a pá de cal foi no Plano Real, que elevou os juros e o custo da produção às alturas. E ele conclui dizendo que em 1997 vendeu tudo para pagar bancos e não passar vergonha com os avalistas.
Esta semana, finalmente, o governo começcou a entender que existem muito mais agricultores dignos (como o cidadão Leonino), do que os caloteiros estigmatizados pelo Banco do Brasil. Aceitou a proposta dos representantes da agricultura no Congresso e após negociações conduzidas pelos ministro Pratini de Moraes concordou em ampliar as condições para pagamentos de dívidas do crédito rural.
Na Região Centro-Sul, o agricultor já iniciou o plantio da safra de verão. Os preços agrícolas têm tido uma ligeira reação e, embora o tempo não esteja ajudando, é possível estimular o produtor para que aumente a área de plantio. Mas, para isso, é preciso garantir o crédito para custeio, o financiamento para a renovação do maquinário agrícola e ampliar as condições de seguro de safra.
- ANTONIO DELFIM NETTO é deputado federal pelo PPB-SP e presidente da Comissão de Fiscalização Financeira e Controle da Câmara Federal





