Postura correta
Durante os anos de alta inflação, as instituições financeiras e muitas empresas eram obrigadas a manter equipes de economistas e estatísticos, às vezes um departamento inteiro para acompanhar semanalmente as variações dos níveis de preços. Com o sucesso da estabilização produzida pelo Plano Real, o interesse sobre as taxas semanais de inflação diminuiu e as empresas privadas dispensaram seus sistemas, passando a apoiar-se nas informações dos institutos de pesquisas especializados, como a Fipe, a FGV e o IBGE.
Em janeiro deste ano, logo após a desvalorização cambial, houve quem temesse a volta da inflação em ritmo acelerado. Os antigos defensores da sobrevalorização do real (cronistas ‘‘chapa branca’’ e técnicos do governo) espalharam o terror: vamos ter inflação de 70% a 80% e uma queda do PIB de 4% a 5%! Eram os mesmos que defenderam durante 50 meses uma devastadora política econômica, sustentada por um câmbio valorizado à custa dos juros reais mais elevados do mundo que destruíram parte do nosso sistema produtivo. Estavam errados antes e erraram depois...
A verdade é que nem com o grande auxílio proporcionado pelos ‘‘tarifaços’’ e pelo anúncio de ‘‘volta da indexação sobre os combustíveis’’, conseguiu-se criar, até agora, uma expectativa inflacionária, obviamente porque a demanda global anda pela hora da morte. Mas houve várias tentativas de criar essa expectativa: logo no primeiro mês após a desvalorização, quando o IGPM (que é um índice muito mal concebido) revelou um aumento de 3,61%, os defensores da velha política recomendaram, para deleite do FMI, que se elevasse a taxa de juros nominal de 70% ao ano, ‘‘para conter a pressão inflacionária’’!
O exemplo da terceira semana de agosto é significativo para mostrar os riscos de se advogar a alta dos juros em resposta a resultados fortuitos do índice de preços, em lugar de concentrar-se sobre o ‘‘núcleo’’ ou ‘‘âmago’’ da inflação, como está fazendo corretamente o Banco Central. Na segunda quadrisemana de agosto, o índice Fipe atingiu 1,13%. O FMI havia feito uma ‘‘advertência’’, na avaliação que periodicamente produz sobre a economia brasileira e logo começou a falar-se na ‘‘necessidade de aumentar os juros’’... Mas na terceira quadrisemana, o índice caiu para 0,9% e o mês terminou com uma inflação de 0,74%. Para o ano todo, a inflação prevista é da ordem de 6% a 7%, o que é uma boa previsão se não for atropelada pelo governo. Justifica-se, portanto, a postura conservadora do Banco Central.
- ANTONIO DELFIM NETTO é deputado federal pelo PPB-SP e presidente da Comissão de Fiscalização Financeira e Controle da Câmara Federal

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