Delfim Netto
Paradoxo de Wallace no Brasil
A racionalidade humana nos dá a capacidade de analisar as dificuldades e encontrar caminhos passíveis de gerar soluções benignas. Infelizmente, outras características, também humanas, como o egoísmo, a falta de imaginação, a preguiça, o medo de mudanças, a venalidade e velhos preconceitos conspiram, frequentemente, para impedir a solução que o bom senso, combinado com a boa vontade, poderia implementar em circunstâncias mais favoráveis.
Essas observações foram feiras pelo paleontologista Stephen Jay Gould, num comentário para a Enciclopédia Britânica, a propósito da obra do escritor Alfred Russel Wallace. Apropriadamente aquele raciocínio sintetiza o que ficou conhecido como o paradoxo de Wallace. Aplicada às decisões (e indecisões) dos governos, essa mesma linha de raciocínio foi magistralmente utilizada pela pesquisadora americana Barbara Tuchman na sua obra mais conhecida, A marcha da Insensatez.
Barbara descreve as circunstâncias que conduziram os governos a ações desastradas ao longo da história mundial, entre as quais as que levaram ao engajamento de seu país na tragédia do Vietnã. Suas pesquisas mostram, de forma absolutamente convincente, que o governo dos Estados Unidos tinha todos os motivos (e as informações necessárias) para evitar o desastre. E, no entanto...
Gould comenta que somos capazes de ver (ou antever) os problemas e as catástrofes, mas frequentemente agimos com lenitência e atraso, o que gera soluções dramáticas e distantes daquilo que nos é indicado por nossa capacidade de análise, bom senso, boa vontade e, sobretudo, moralidade!
Se analisarmos com alguma racionalidade as circunstâncias que estamos vivendo no Brasil, veremos o quanto nos aproximamos do paradoxo de Wallace. Afinal, todos sabemos o que é preciso fazer para dar eficiência macroeconômica e microeconômica ao nosso País e voltarmos ao crescimento econômico. Todos sabemos que com o crescimento será mais fácil diminuir as desigualdades entre as pessoas. Todos sabemos que a única restrição ao crescimento é a expansão das exportações.
Conhecemos, portanto, as soluções, mas continuamos agindo com leniência e atraso. Todos sabemos que estamos empurrando com a barriga por muito tempo as soluções, e que estamos deixando os problemas tomarem um aspecto social dramático. No final, a realidade vai nos empurrar para uma solução trágica! Será que não podemos combinar um pouco de nossa racionalidade com um pouco de moralidade para fugir ao paradoxo de Wallace?
- ANTONIO DELFIM NETTO é deputado federal pelo PPB-SP e presidente da Comissão de Fiscalização Financeira e Controle da Câmara Federal





