Emprego e renda
A geração de empregos é o único mecanismo de comprovada eficiência na redução da pobreza. Para gerar novos empregos e, portanto, reduzir a miséria produzida pelo desemprego, é necessário que a economia cresça mais rapidamente do que o crescimento da população economicamente ativa. Essa obviedade ululante é válida para o Brasil, para Bangladesh, Gana ou para os Estados Unidos. Outra afirmação absolutamente óbvia (embora rejeitada por eminentes sociólogos e por ‘‘nouveaux économistes’’), é que só o crescimento econômico é capaz de produzir uma consistente melhoria na distribuição da renda entre pessoas e regionalmente.
Após cinco anos de programa de estabilização, a economia brasileira entrou em recessão. O governo concentrou seus esforços no combate à inflação, obtendo resultados altamente satisfatórios. Todos sabem que a estabilidade é uma das pré-condições para se alcançar o crescimento sustentado da economia. É uma condição necessária, mas não é suficiente. O governo, porém, agiu o tempo todo como se acreditasse que a estabilidade monetária era algo virtuoso que, por si só, seria capaz de eliminar a pobreza, acabar com as desigualdades de renda e simultaneamente gerar as condições necessárias ao crescimento da produção e do emprego.
Desde o início já era evidente que esses objetivos não se materializariam na vigência de uma política de juros assassinos que destruiu os investimentos produtivos na indústria, na agricultura e desorganizou financeiramente o comércio. A política de juros estava acoplada à política cambial que desestruturou o setor exportador, levou à acumulação de enormes déficits comerciais e produziu uma enorme dívida externa e interna.
Esses fatos indicavam que a economia caminhava no rumo inverso daquele trombeteado pela propaganda do governo. A sociedade foi condicionada, no entanto, a suportar a redução dos postos de trabalho e a queda dos níveis do salário real sob o argumento de que isso era a consequência inevitável de um ‘‘processo de modernização’’ da economia, com enormes ganhos de produtividade que nos levariam à retomada do crescimento com empregos de melhor qualidade.
Somente com a dramática correção da política cambial em janeiro deste ano é que a sociedade passou a compreender melhor a natureza do problema. Os trabalhadores, principalmente, que pareciam aceitar como uma fatalidade o corte dos empregos formais e a redução do nível da atividade, já mudam de atitude e mostram-se determinados em reivindicar a manutenção do emprego industrial.
O governo, por sua vez, parece estar começando a entender que a solução para o desemprego depende da adoção de políticas ativas de desenvolvimento. Essas políticas começam pela reativação dos estímulos às exportações industriais, pela mais rápida redução das taxas de juros finais e por um amplo suporte à produção agrícola.
O governo tem que se concentrar nesses pontos e agir depressa, para recuperar o tempo perdido em todos esses anos de propaganda enganosa. Só com a retomada do crescimento e com o aumento das oportunidades de emprego é que a propaganda do governo poderá voltar a falar em redução da pobreza e na melhoria da distribuição de renda.
- ANTONIO DELFIM NETTO é deputado federal pelo PPB-SP e presidente da Comissão de Fiscalização Financeira e Controle da Câmara Federal

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