Delfim Netto
Ciclos de crescimento
A revista Carta Capital de 7 de julho corrente, publica uma in teressante repor tagem sobre os recentes ciclos de crescimento da economia brasileira, enriquecida com um conjunto de gráficos da melhor qualidade. Um desses gráficos mostra a trajetória do desenvolvimento brasileiro de 1952 a 1998, registrando o grande impulso da industrialização no governo Juscelino Kubitschek, quando o crescimento do PIB atingiu o ápice de 10%, em 1960. O maior destaque do período é o crescimento de 12,5% do PIB em 1973, no governo do presidente Emilio Médici.
O gráfico mais interessante, porém, é o que compara o crescimento da economia brasileira com o das demais economias do mundo, no período de 1965 a 1980. Nesses 15 anos, a taxa média de crescimento do PIB mundial foi de 4,1%, enquanto o Produto Interno Brasileiro registrou um crescimento de 7,8% (média anual no período), superior ao de todos os demais países da Europa, da Ásia, da África e das Américas. O segundo colocado foi o Japão, com crescimento de 6,6%. Puxado pela expansão da economia brasileira, o PIB da América Latina cresceu 6% na média anual.
Convém lembrar esses fatos, não por uma questão de saudosismo, mas como simples mostra da inconsistência das razões apresentadas nos anos recentes como justificativa para a perda de dinamismo da economia brasileira. As dificuldades decorrentes das crises bancárias ou de pagamentos no México, na Ásia ou na Rússia nos anos 90, são insignificantes se comparadas com a capacidade destrutiva da explosão dos preços do petróleo e da desorganização do sistema financeiro mundial, de 1973 em diante.
Com a circunstância de que inexistiam, à época, os mecanismos de socorro internacional prontamente mobilizados para apagar os princípios de incêndio que aconteceram na atual década. Muito ao contrário, o que vigorou durante a crise do petróleo foi a prática explícita de canibalismo em escala planetária, com imposição de barreiras comerciais e a elevação das taxas de juro no mercado internacional, chegando a 21% ao ano nos Estados Unidos!
A reportagem da Carta Capital mostra finalmente a variação do PIB mundial entre 1980 e 1997. No período, o produto mundial cresceu à média anual de 2,9%, enquanto o PIB do Brasil cresceu 2,2% e o da América Latina 2,5%. Ficamos abaixo da média mundial. As melhores performances foram as dos países do Leste e do Sul da Ásia, com crescimento do PIB respectivamente de 8,3% e 5,6% na média anual.
Como destaca a revista, nós passamos da liderança do crescimento mundial à lanterna do campeonato. A crise do petróleo (importávamos 90% do consumo), os equívocos de nossa política salarial e a queda da produção agrícola de 1983, combinadas com a desvalorização cambial, dobraram a taxa de inflação. Apesar de excessivamente alta, a taxa de inflação permaneceu constante de 1983 a 1985, revelando que a distribuição de renda tinha se estabilizado. Mas é importante constatar que o saldo médio da balança comercial pulou de menos US$ 280 milhões em 1980/82 para mais de US$ 10,7 bilhões em 1983/85. E a taxa média de crescimento do PIB passou de 1,9% em 1980/2, para 3,4% em 1983/85. Para comparação, o crescimento médio do PIB foi de 2,7% em 1995/98.
Nada justifica a perda de nossa capacidade de realizar o crescimento após 1985. Os famosos avanços de globalização, afinal, atingiram a todos. O desenvolvimento tecnológico é fato de impulso e não de queda do crescimento, e a abertura comercial é uma alavanca à disposição de quantos saibam utilizá-la para ampliar a produção e gerar empregos.
O que explica a perda de dinamismo de nossa economia, especialmente na década de 90, é a escolha de políticas ideologicamente pervertidas, impingidas à sociedade como boa ciência pela sinistra aliança dos interesses dos especuladores dos mercados financeiros com os do marqueting político regiamente remunerado.
- ANTÔNIO DELFIM NETTO é deputado pelo PPB-SP e presidente da Comissão de Fiscalização Financeira e Controle da Câmara Federal





