Desmontando a armadilha
Há esperanças de recuperação da economia no segundo semestre. A expectativa favorável se baseia na retomada das exportações industriais estimuladas pela liberalização cambial e pela possibilidade real de redução nas taxas de juros, que se processa ainda mais timidamente mas que tem condições de continuar caindo. Já existem sinais de movimentação, nos negócios de exportações em alguns setores industriais, notadamente nos têxteis e calçados, cuja capacidade de competição no exterior estava bloqueada pela armadilha cambial que só começou a ser desmontada em janeiro do corrente ano.
Com a queda dos preços dos produtos agrícolas e das matérias-primas em geral nos mercados externos, tornou-se ainda mais necessário redobrar os esforços para o rápido crescimento das exportações industriais. É o passo inicial para retirar a economia do abismo recessivo em que foi lançada após 50 meses de virtual congelamento do câmbio e da imposição das mais altas taxas de juros do mundo. Um equívoco que produziu uma legião de 10 milhões de desempregados e mantém outros 12 milhões de trabalhadores sobrevivendo precariamente na chamada economia informal, sem rendimento certo.
Esses índices de desemprego revelam a profundidade do processo de destruição a que foi submetido o setor produtivo nacional. Indústrias com tradição no comércio internacional simplesmente desapareceram, mudaram de ramo ou foram absorvidas por empresas de fora, geralmente suas competidoras nos mercados externos. Trata-se agora de encontrar os meios de proporcionar a mais rápida recuperação das exportações industriais. O governo não pode deixar de fazer a sua parte, como se isso não fosse problema dele, pois sem um vigoroso aumento dessas exportações não revertemos o quadro recessivo da economia e a tragédia do desemprego continuará afetando a estabilidade social.
Nesse segundo semestre e provavelmente no ano que vem, não poderemos contar com o crescimento da renda das exportações da agricultura, devido ao aviltamento dos preços das principais commodities no mercado internacional. Persistem as barreiras à entrada de nossos produtos na Eurolândia e nos Estados Unidos e os preços nessa primeira metade do ano caíram em média 30%. Mesmo tendo ampliado o volume físico das vendas em quase 20%, a renda das exportações agrícolas se reduziu. A médio prazo pode haver recuperação nos preços de um ou outro produto, mas as perspectivas não são nada animadoras.
No caso da soja, por exemplo, os nossos problemas devem agravar-se com a colheita da supersafra de soja americana este ano, prevista em 78 milhões de toneladas. Ao contrário do nosso governo - que tem medo da palavra subsídio - o governo dos Estados Unidos está destinando US$ 6,5 bilhões em subsídios aos seus felizes agricultores, para que eles não sofram com a queda nas cotações da soja que eles mesmo provocaram.
O comportamento de nossas exportações industriais será, portanto, fator decisivo que vai determinar o sucesso ou o fracasso da nova política econômica: se vamos caminhar para o crescimento da produção e do emprego ou se vamos continuar sofrendo a recessão que nos foi legada pela velha política dos ‘‘nouveaux économistes’’...
- ANTONIO DELFIM NETTO é deputado federal pelo PPB-SP e presidente da Comissão de Fiscalização Financeira e Controle da Câmara Federal

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