Delfim Netto
Um valioso serviço
Uma carta de leitor, publicada no Painel da Folha de S.Paulo, termina com uma pergunta que eu também venho me fazendo há bastante tempo, sem encontrar resposta: Por que o Banco do Brasil deixou de prestar esse valioso serviço? O valioso serviço a que o missivista se refere é o apoio do Banco do Brasil às exportações.
A carta, do sr. Jairo Dias de Almeida, conta a edificante historinha que eu tomo a liberdade de reproduzir resumidamente aqui: Em 1982, estava trabalhando em um indústria insatisfeita com as vendas no mercado interno e que tentava exportar. A empresa procurou o Banco do Brasil e de lá voltou com folhetos, listagens de computador, muitas anotações e idéias na cabeça. Seguiu-se uma intensa troca de informações com o exterior, remessa de amostras, além de novas consultas ao Banco do Brasil. Resultado: exportações anuais de quase US$ 400 mil. Trabalhando agora numa pequena metalúrgica que também está insatisfeita com suas vendas locais, sugeri o mesmo caminho. O titular de nossa firma procurou duas agências do Banco do Brasil e voltou de mãos abanando: não há mais ninguém que possa fazer aquele tipo de iniciação... Mas ele foi atendido muito gentilmente por vários gerentes cuja maior preocupação foi tentar vender-lhes títulos da Ourocap...
Para usar a expressão da moda: Emblemático, não?
Os gerentes do Banco do Brasil, que antes eram premiados de acordo com o crescimento das operações de financiamento às atividades produtivas, em função do apoio às exportações das pequenas e médias empresas, hoje são estimulados a empurrar nos clientes apólices de seguro e títulos de capitalização de baixa rentabilidade ancorados em sonhos lotéricos.
Algumas pessoas poderiam dizer que se trata de um fato isolado, mas infelizmente não é o caso.
Há uma semana, esteve na Comissão de Fiscalização e Controle da Câmara dos Deputados o ilustre senhor diretor da Associação Brasileira das Empresas Exportadoras, sr. José Augusto de Castro, para falar exatamente sobre o que se passa no setor. Ele apresentou dados mostrando que as exportações estão cada vez mais concentradas num grupo reduzido de cerca de 80 grandes empresas que respondem por 49% das vendas ao exterior. As empresas de menor porte não têm acesso ao crédito oficial para capital de giro. A carga tributária e os elevados custos burocráticos praticamente inviabilizam a exportação de bens de pequenos valores.
Na realidade - disse ele - não há nem ao menos apoio moral às exportações, e exemplificou: No ano passado não tivemos apoio para enviar uma única missão comercial ao exterior. Em contrapartida, recebemos somente da Inglaterra sete missões comerciais interessadas em exportar para o Brasil.
O desajuste cambial e a política de juros dos últimos quatro anos e mais o valioso serviço que o Banco do Brasil deixou de prestar às empresas exportadoras, permitem-nos compreender por que se reduziu dramaticamente a nossa participação no comércio mundial. Em 1984, nossas exportações representavam 1,5% do total das exportações mundiais e hoje temos uma medíocre participação de 0,8%. Essa diferença representou, somente em 1998, uma perda de US$ 35 bilhões que deixamos de exportar.
- ANTÔNIO DELFIM NETTO é deputado federal pelo PPB-SP e presidente da Comissão de Fiscalização e Controle da Câmara Federal





