Delfim Netto
Maldade brasileira
A mudança da política cambial no Brasil no mês de janeiro, com a introdução do regime de taxas flutuantes e a correção do valor do real em aproximadamente 30% desde então, produziu algumas dificuldades adicionais no comportamento da economia argentina. Acentuou-se a queda do nível da atividade devido ao forte impacto nas exportações direcionadas ao mercado brasileiro. Muitos produtos industriais argentinos, cuja penetração em nosso mercado era favorecida pela sobrevalorização do real, deixaram de ser competitivos. A redução do valor das exportações é ainda acentuada por causa da queda dos preços das commodities agrícolas no mercado internacional.
Muitos argentinos estão sendo induzidos a crer que esta situação decorre de um ato de maldade dos brasileiros, interessados em aumentar a capacidade de competição de nossos produtos no seu mercado. Tanto lá, como aqui, subsiste uma boa dose de incompreensão sobre as circunstâncias que levaram à flutuação da taxa de câmbio no Brasil. A situação anterior - enquanto o real permaneceu sobrevalorizado - garantiu aos exportadores argentinos uma vantagem de preços que eles souberam aproveitar, aumentando extraordinariamente suas vendas no mercado brasileiro.
O comércio entre os dois países, nesses quatro anos, registrou superávits importantes em favor da Argentina. Foram, porém, resultados construídos sobre areia movediça, pois o comércio estava sendo sustentado em preços falsos, tendo em vista a inconsistência de nossa política cambial. As exportações argentinas ganharam uma alta substancial no mercado brasileiro, mas não cresceram de forma importante com relação ao resto do mundo, o que deixou o setor exportador daquele país em situação vulnerável diante de uma crise cambial no Brasil. O setor privado argentino tinha ampliado as linhas de crédito para dinamizar as vendas e se viu em situação complicada com a perda de competitividade de seus produtos, após a correção do equívoco cambial brasileiro.
É preciso entender que no período de sobrevalorização do real o setor privado brasileiro teve a sua capacidade de competição amputada. Graças à disfunção cambial, nossos produtos foram submetidos à competição predatória dos bens importados no mercado interno, enquanto perdiam capacidade de competir nos mercados externos, inclusive na Argentina. Até hoje é surpreendente como essa política equivocada - que impediu o crescimento econômico, produziu um enorme desemprego e resultou no aumento das desigualdades sociais no Brasil - custou tanto a ser corrigida. Na realidade, a correção não foi sequer fruto de uma decisão autônoma dos brasileiros, mas sim determinada pelo esgotamento de uma política que estava nos levando inexoravelmente a uma crise de pagamentos vis-à-vis o exterior.
Os argentinos podem, portanto, acreditar que não houve nenhuma intenção deliberada de retirar as condições de competitividade de suas exportações para o Brasil. O que ambos - brasileiros e argentinos - não podem ignorar, contudo, é que a recessão produzida aqui vai se reproduzir acolá.
- ANTÔNIO DELFIM NETTO é deputado federal pelo PPB-SP e presidente da Comissão de Fiscalização e Controle da Câmara Federal





