Delfim Netto
Delfim Netto
Restrição
externa
A velha política (1994/98) dos nouveaus économistes, falecida em janeiro do ano corrente, deixou uma herança que aos poucos vai sendo melhor conhecida graças, de um lado, à desinterdição do debate econômico e, de outro, à deserção dos comentaristas chapa branca que a defendiam por encomenda. Abriu-se, a partir da correção da política cambial, um espaço novo para a discussão do que realmente interessa: a retomada do desenvolvimento e a criação de empregos.
A flutuação da taxa cambial, iniciada há apenas 15 semanas, vem possibilitando uma persistente redução nas taxas de juros, sem que este movimento tenha produzido o desastre anunciado pelos propagandistas da antiga política. Eles defenderam a âncora cambial e a política de altas taxas de juros com uma fúria iconoclasta, advertindo que seu abandono aprofundaria a recessão, levaria a uma queda de 5% do PIB no semestre e que as taxas de inflação poderiam atingir 50% ao ano, destruindo a estabilidade.
Essas elucubrações foram desmentidas pelos fatos, como aliás a maioria das previsões repetidas nos últimos quatro anos pelos mesmos personagens cuja política nos deixou como legado alguns sinistros recordes: a maior taxa de desemprego de nossa história, uma dívida externa fantástica e uma forte desnacionalização de nossa indústria e do setor bancário.
A queda na taxa de juros é a primeira consequência importante do fato de termos conseguindo libertar a economia da camisa-de-força cambial. Ela deve cair ainda mais, ampliando a sinalização para a retomada dos investimentos na produção e nas exportações. Essa sinalização precisa ser reforçada por ações do governo, facilitando a recomposição do capital de giro das empresas, eliminando a burocracia que continua emperrando os financiamentos às exportações e principalmente determinando a total mobilização das agências do Banco do Brasil para atender com prioridade as atividades direcionadas para o comércio exterior.
Não há necessidade de muita discussão teórica sobre as condições para a retomada do desenvolvimento e a consequente redução dos níveis de desemprego. O principal obstáculo ao nosso crescimento, agora como em outras épocas, sempre foi a restrição externa. Eliminada a armadilha cambial, o governo não precisa fazer muito mais do que dar efetivo suporte às exportações e à agricultura.
O Brasil tem condições de voltar a crescer. Está acontecendo na economia exatamente aquilo que a boa teoria dizia que ia acontecer. Não houve surto inflacionário, não se desarticulou a economia e a taxa cambial mantém um comportamento estável, após a correção em termos reais de 25% a 30%. A taxa de juros vai continuar caindo, porque esta é a grande vantagem de ter o câmbio flutuante.
O grande problema a enfrentar é não permitir o aumento do déficit comercial. É preciso que as exportações aumentem mais rapidamente, porque quando a economia voltar a crescer, também crescerão as importações. É por isso que exportar é uma necessidade absoluta nesse instante, se não quisermos desperdiçar mais uma oportunidade de retomar o desenvolvimento e dar emprego aos brasileiros.
- ANTONIO DELFIM NETTO é deputado federal pelo PPB-SP e presidente da Comissão de Fiscalização Financeira e Controle da Câmara Federal





