Delfim Netto





Descruzar
os braços
Não é difícil entender as razões pelas quais as exportações brasileiras estão demorando a se recuperar, após a correção da política cambial. O setor exportador, da mesma forma que a agricultura e vastos segmentos da indústria, ainda não se refez do processo de destruição a que foi submetido nos últimos quatro anos, em decorrência do desequilíbrio da taxa de câmbio e das altas taxas de juros vigentes.
Se recuarmos um pouco mais no tempo, vamos verificar que o setor exportador brasileiro foi penalizado com três congelamentos do câmbio no espaço de quinze anos, e é quase um milagre que não tenha desaparecido como atividade econômica. Um grande número de empresas extraordinariamente ativas no setor exportador teve que bater em retirada, cedendo a seus competidores um espaço duramente conquistado no comércio mundial.
No período, houve uma importante redução da participação brasileira no comércio mundial: em 1984, as exportações brasileiras correspondiam a 1,4% das exportações mundiais. Nos dez anos seguintes, o comércio mundial apresentou grande dinamismo, dobrando de valor. Houve um crescimento de 100% nas exportações que fecharam o ano de 1994 em US$ 4,180 trilhões. As exportações brasileiras cresceram, mas não no mesmo ritmo do comércio mundial, somando US$ 43,5 bilhões. Nossa participação caiu para 1,05% do total das exportações mundiais.
A queda mais rápida aconteceu entre 1994 e 1998. As exportações mundiais, de acordo com a estimativa mais recente do FMI, somaram US$ 5,300 trilhões em 1998, crescendo aproximadamente 30% em relação a 1994, enquanto as nossas exportações chegaram a US$ 51,1 bilhões, menos de 20% de crescimento. A participação dos produtos brasileiros nas exportações mundiais está reduzida a 0,95%. Nesses quatro anos, se as nossas exportações apenas tivessem acompanhado o ritmo de crescimento do comércio mundial, teríamos acrescentado algo como US$ 32 bilhões à nossa receita de comércio exterior.
Esses dados indicam que houve uma enorme desmobilização no setor exportador ao longo dos últimos 15 anos, o que explica em boa parte as dificuldades de recuperação. Na agricultura, segmentos de grande dinamismo no comércio exterior como algodão e o cacau, por exemplo, passaram de exportadores a importadores. É verdade que a cultura cacaueira foi vitimada pela praga da vassoura-de-bruxa, mas não se cuidou de socorrê-la porque era um produto de exportação e a ‘‘exportação não era importante...’’ Na indústria, a política cambial penalizou os exportadores de calçados, tecidos, autopeças, metalmecânica e tantos outros, facilitando importações e reduzindo a sua capacidade de competir no exterior.
A correção da política cambial retirou o maior obstáculo à retomada das exportações. Mas o governo não pode ficar esperando, de braços cruzados, pela recuperação. Com o início da queda dos juros torna-se possível reativar os mecanismos de estímulo, a começar pela recomposição do capital de giro das empresas potencialmente exportadoras, para que elas possam ampliar a produção e as vendas ao exterior. Cabe ao governo a tarefa urgente de mobilizar novamente o setor para a mais rápida expansão das exportações. Já perdemos muito tempo...
- ANTONIO DELFIM NETTO é deputado federal pelo PPB-SP e presidente da Comissão de Fiscalização Financeira e Controle da Câmara

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