Delfim Netto
Delfim Netto
Embuste
É simples embuste atribuir-se à desvalorização cambial a responsabilidade pelo aumento dos níveis de desemprego nos meses de fevereiro e março deste ano. Na Grande São Paulo, 20% da população economicamente ativa não consegue trabalho, de acordo com o levantamento do DIEESE, enquanto nas demais regiões metropolitanas a taxa de desemprego se aproxima de 8% pela metodologia do IBGE. São recordes absolutos desde quando se iniciaram pesquisas sobre o comportamento do mercado de trabalho no Brasil, em 1982. Mas é evidente que essa situação não se formou do dia para a noite, em seguida à correção da política cambial no mês de janeiro e sim ao longo dos últimos quatro anos de uma administração infeliz, enrolada e arrogante, na definição precisa e radical do ex-ministro Ernane Galvêas.
Essa é uma questão que ainda hoje intriga um bom número de cidadãos: como foi possível insistir por tanto tempo na sustentação de uma política que obstinadamente empurrava para baixo o nível da atividade econômica? Ou, como me foi colocado por um estudante de Economia durante um interessante debate em Goiânia: Qual a lógica de uma política que produziu um enorme endividamento externo e interno e ao mesmo tempo a redução dos níveis da atividade econômica e do emprego?
A explicação (não a lógica) é que o sucesso do Plano Real no combate à inflação transferiu poder em demasia a um pequeno grupo de tecnocratas que convenceu o governo (e este a sociedade, através dos meios de comunicação) que a estabilidade era uma espécie de bem supremo.
Nada mais tinha importância. A nova política não admitia críticas. Estava no caminho certo e ponto final... A realidade, no entanto, é que ela estava ancorada em falsas premissas que diziam o seguinte: A) O real sobrevalorizado, mais a abertura comercial, produzirão um choque de produtividade na economia brasileira, de tal magnitude, que logo a nossa produção se tornaria competitiva nos mercados internacionais. As exportações voltariam a crescer, independente do nível da taxa de câmbio; B) O déficit em conta corrente não tem importância, porque sempre haverá no exterior um número suficiente de idiotas disposto a financiá-lo.
Para sustentar essa política era preciso manter as taxas de juros mais altas do mundo, de modo a estimular o ingresso de recursos externos. Quando se argumentava que as altas taxas de juros estavam destruindo setores inteiros da indústria e da agricultura, reduzindo o nível da atividade e desempregando milhões de trabalhadores, a resposta era que se tratava de uma depuração criativa. Com a mesma arrogância se descartava a advertência de que o rápido crescimento das dívidas interna e externa iria minar a credibilidade de toda a política, aumentando o risco de crise cambial.
A crise, que começou a se tornar mais visível em outubro passado, desabrochando em janeiro deste ano, veio confirmar a nossa suspeita que há um número maior de idiotas aqui dentro do que lá fora.
Em síntese, essa é a lógica que se revelou ao desmoronar a política infeliz, enrolada e arrogante... A correção cambial vai possibilitar escolher um caminho mais racional que nos conduza à retomada do crescimento e a recuperação dos empregos perdidos.
- ANTONIO DELFIM NETTO é deputado federal pelo PPB-SP e presidente da Comissão de Fiscalização Financeira e Controle da Câmara Federal
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