Delfim Netto





Imobilismo
perigoso
O setor agrícola continua sem merecer a devida atenção do governo. Não se resolveu o problema do endividamento que há quatro anos impede o produtor de expandir as áreas de plantio; as taxas de juros inviabilizam os investimentos em maquinário agrícola que poderiam proporcionar ganhos de produtividade; o financiamento para custeio é escasso e caro, fora do alcance da grande maioria dos pequenos e médios produtores. Na falta do crédito do governo, os agricultores se financiaram dos fornecedores de insumos e na indústria, a taxas do mercado financeiros e geralmente com correção cambial. Com a desvalorização do real em janeiro, aumentou a dívida contraída na última safra.
Todas essas questões deveriam estar sendo tratadas em regime da mais alta prioridade pelo governo, mas não é o que se vê. Não se trata apenas de problemas particulares de alguns agricultores, mas de todo um setor que tem participação estratégica no processo de desenvolvimento, se quisermos reverter o processo recessivo porque passa a economia temos que mobilizar todos os recursos disponíveis e a energia do governo para apressar a recuperação de dois setores: a agricultura e o setor exportador. São os vetores principais por onde deve se iniciar a retomada do crescimento.
Não faz muito tempo que o senhor presidente da República se referiu à necessidade do crescimento das exportações com fator de ‘‘salvação nacional’’. Mais recentemente, discursando na inauguração de um sistema de geração de energia no interior do Paraná, S. Excia. falou da determinação de seu governo no sentido de garantir ‘‘efetivo suporte às famílias que realmente trabalham na terra’’ durante seu segundo mandato.
O que se observa, porém, é que existe uma enorme distância entre o discurso oficial e as ações administrativas na esfera federal. Os programas de estímulos às exportações não deslancham, persistindo os entraves burocráticos nos mecanismo que permitiriam agilizar os financiamentos. A ‘‘salvação nacional’’ pela via das exportações continua um objetivo distante.
Não se tem notícia também da preparação das medidas destinadas a ampliar os suportes à atividade agrícola e a reverter o processo de descapitalização que atinge o setor. O produtor rural necessita ser informado com antecedência sobre as modalidades de crédito a que terá acesso para se programar para a próxima safra. Precisa saber o quanto antes qual o tratamento que será dado ao problema das dívidas acumuladas, sem o que ele não tem como planejar as suas atividades para o restante do ano. Os resultados da próxima safra agrícola terão peso decisivo no sucesso (ou fracasso) da política econômica, mas até agora, surpreendentemente, o governo parece não se dar conta desse fato.
- ANTONIO DELFIM NETTO é deputado federal pelo PPB-SP e presidente da Comissão de Fiscalização Financeira e Controle da Câmara Federal

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