Delfim Netto
Prêmios
Nobel
Os prêmios Nobel de economia distribuídos pela Academia Real de Ciências da Suécia parecem estar em relativa sintonia com o ‘‘sentimento’’ do mercado. Em 1997, o prêmio foi conferido aos economistas Robert Merton e Myron Scholes, dois brilhantes teóricos de um novo ramo, a economia financeira. Esse prêmio recebeu da imprensa a maior cobertura. Nunca se acreditou, tanto, que as finanças estavam salvando o mundo. A produção física ‘‘é coisa do passado’’.
O futuro é a ‘‘produção’’ financeira: vendendo e comprando papéis pode-se ganhar 50% ao ano. Produzindo sapatos ou parafusos, com sorte se ganha 3%, depois dos impostos... Não está provado, então, que ‘‘é melhor para o bem-estar do mundo vender papéis em lugar de parafusos’’?
Esta predominância do capital financeiro produtivo, que corresponde à dominância do egoísmo sem nenhum compromisso com um mínimo de solidariedade, deve ter feito revirar em seus túmulos os membros da velha escola histórica alemã. Eles sabiam que uma sociedade com tal ética não poderia sobreviver. É verdade que hoje a reputação da economia financeira está seriamente abalada pelo fracasso prático dos dois prêmios Nobel quando seu fundo de investimentos soçobrou nos Estados Unidos.
Esses fatos - e a sua ligação com o mundo - fez a Academia Sueca premiar em 1998 (sem a menor repercussão na mídia) um grande economista indiano, Amartya Kumar Sen, por suas pesquisas no que se chama a economia do bem-estar, onde ele ajudou a superar alguns paradoxos. Ele estudou a fundo as razões das ‘‘fomes’’ no mundo, mostrando que elas não se devem à escassez mas às tragédias distributivas e construiu um índice de pobreza.
Além do mais, Sen é um dos economistas mais proeminentes na nova linha de pesquisa que procura analisar as consequências (para a teoria e para a política econômica) das sugestões de filósofos morais como é o caso do neo-utilitarista Harsanyi (Nobel de 1994), de Rawis, Nozick, Walzer e outros. O que se pretende é entender quais os princípios que deveriam presidir a organização de uma sociedade que se deseja ‘‘justa’’, um velho problema desde Aristóteles.
No momento em que, no Brasil, se dá ao mercado (por motivos mais teológicos do que racionais) o papel de demiurgo da felicidade humana e que se coloca como ‘‘imperativo de sobrevivência nacional’’ a mais livre movimentação dos capitais, pouco importando as suas consequências sobre as desigualdades, o emprego e a miséria, é confortador ver que o prêmio Nobel de economia de 1998 foi para um homem que fez o seu nome lutando para devolver a ética à teoria e à política econômica.
É um bom sinal, para que voltemos a priorizar a produção e o desenvolvimento, em lugar da economia ‘‘capinaceira’’, na precisa definição do jornalista Joelmir Betting...
- ANTONIO DELFIM NETTO é deputado federal pelo PPS-SP e ex-ministro da Fazenda e do Planejamento

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