Delfim Netto
Haja
governo
Está faltando ao governo o sentido de urgência necessária para reorientar as prioridades da política econômica após a mudança do regime cambial desde o dia 12 de janeiro. O abandono da âncora cambial e a consequente introdução do sistema de taxa flutuante cria condições que não podem deixar de ser aproveitadas para libertar a economia da armadilha que nos impôs, ao mesmo tempo, um baixo ritmo de crescimento, altos índices de desemprego, redução do salário real e a interrupção do processo de melhoria na distribuição da renda proporcionada pelo vitorioso combate à inflação. O principal mérito do novo regime cambial é que ele permite o abandono da política de juros assassinos que durante os últimos 50 meses deu sustentação ao terrível equívoco que foi a sobrevalorização do real.
Ninguém ignora que a âncora cambial teve um papel importante na estabilização, como aliás é comum em todos os programas dessa natureza. O que não se demonstrou até agora é qual foi a contribuição da sobrevalorização, induzida pelos juros escorchantes, sobre a redução da taxa de inflação. Parece-me que é estatisticamente indiscernível o efeito da sobrevalorização sobre a valorização de redução da inflação. Mas são perfeitamente verificáveis os desequilíbrios que ela produziu na economia, com a redução do ritmo do crescimento do PIB, o aumento do déficit fiscal e da dívida interna e com os formidáveis déficits nas contas do comércio exterior e no balanço de pagamentos.
O Brasil empobreceu nesses quatro anos de sobrevalorização cambial mantido às custas das mais altas taxas de juros do mundo. Chegamos ao final de 1998 com um crescimento do PIB de apenas 0,15% em relação a 1997, que já foi um ano de baixo crescimento. A população vem crescendo à taxa de 1,4% ao ano, o que significa que em 1998 cada um dos brasileiros teve seu nível de vida reduzido. Como a queda não é igual para todos e castiga mais duramente os mais pobres, aumenta a perversidade na distribuição da renda entre os brasileiros. Este é, singelamente, o balanço social desses quatro anos.
Existe, agora, uma possibilidade real de começar a reverter este quadro. Mas é preciso que o governo saia da inércia e defina desde logo novas prioridades. Com os instrumentos para o ajuste fiscal que o Congresso está oferecendo ao governo e uma ação efetiva de cortes nas despesas, podemos caminhar para o reequilíbrio interno. O novo regime cambial permite avançar na direção do equilíbrio das contas externas, desde que o governo se empenhe na sustentação de um vigoroso programa de estímulo às exportações. As importações vão cair em decorrência também da correção da política cambial e em função da própria queda do nível da atividade interna, permitindo reduzir o déficit nas contas do comércio.
Tenho insistido em que essas oportunidades não sejam desperdiçadas. Só é preciso que haja governo.
- ANTONIO DELFIM NETTO é deputado federal do PPB-SP, ex-ministro da Fazenda e do Planejamento

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