Delfim Netto
Delfim Netto
A discussão
que interessa
As questões relativas ao desenvolvimento frequentaram apenas marginalmente o debate econômico desde o lançamento do Plano Real, há cinco anos. As atenções, tanto nos meios acadêmicos como na maior parte da mídia, concentraram-se no processo de estabilização - o que é explicável pela própria importância do processo - mas numa larga medida induzidas pela eficiente máquina de divulgação oficial. Digo eficiente porque atingiu o objetivo a que se propôs de magnificar os benefícios da estabilidade, colocando-os a serviço da principal meta política do governo, a reeleição. Habilmente foram mantidos longe dos olhos e ouvidos da maioria da população os sinais reveladores da crise que ia sendo construída pelas desastrosas política cambial e monetária.
A crise que vivemos (que surpreendeu a maioria da população logo após as eleições) é a crise do desenvolvimento, ou melhor dizendo, da ausência de crescimento econômico. As possibilidades de crescimento da produção e dos níveis de emprego, de expansão das exportações e, principalmente, de melhoria na distribuição de renda que só o desenvolvimento proporciona, foram eliminados pelas políticas cambial e monetária. Eliminou-se até mesmo o debate sobre as consequências dessas políticas, responsáveis pela armadilha que impediu o crescimento econômico.
Pesquisa de âmbito nacional realizada pela Datafolha nos dias 3 e 4 deste mês nos dá uma idéia da reação popular diante da surpresa pós-eleitoral. Descreveu a confiança da sociedade na capacidade do governo de enfrentar os problemas econômicos e sociais. A criação de empregos é reivindicada pela grande maioria, em todas as categorias pesquisadas, independente da idade e dos níveis de escolaridade e renda. O desemprego é o grande problema que se procurou minimizar nos quatro anos de sucesso do programa de estabilização. Repetiu-se, à exaustão, sucessivamente: que o desemprego era uma fatalidade determinada pelo processo de modernização (sic) da indústria nacional; que era apenas friccional e localizado em bolsões de incompetência (como o ABC Paulista); que era o preço que a sociedade tinha que pagar pela desejada Inserção do Brasil na economia globalizada!
A discussão sobre o desemprego, isoladamente, não ajuda a clarear o problema. O estreitamento do mercado de trabalho desde 1994 aos nossos dias deriva do fato que a economia cresceu muito pouco, registrando a média anual de 2,8% de aumento do PIB no período. Se pudermos admitir um crescimento da produtividade da ordem de 3,5% ao ano e um aumento da procura de emprego correspondendo a uns 2,5% da população economicamente ativa, é evidente que a economia precisa crescer no mínimo 6% anualmente, para começar a resolver o problema do desemprego.
Todos sabemos que 1999 não será um ano de crescimento. Com sorte poderemos evitar uma queda acentuada do PIB. O que é necessário é que o governo, enquanto se produz o ajuste do setor público, reoriente suas prioridades para uma política de crescimento, iniciando desde logo pelo suporte vigoroso às exportações e à produção de alimentos. Esses são os setores em que primeiro se move a alavanca do desenvolvimento, do qual depende a solução dos problemas do desemprego e da má distribuição da renda. É a discussão dessas prioridades que interessa.
- ANTONIO DELFIM NETTO é deputado federal do PPB-SP e ex-ministro da Fazenda e do Planejamento





