Delfim Netto
Delfim Netto
Questão de
gerência
Ao contrário do que dizem os neo-catastrofistas (que, antes, eram adoradores da estratégia conhecida como desinflação competitiva), a economia brasileira tem hoje maiores possibilidades de recuperar o equilíbrio interno e externo do que antes da desvalorização cambial. Com a flutuação cambial a política econômica adquire um maior grau de liberdade. Não precisamos mais condicionar a política de juros à defesa de um câmbio valorizado.
Essa liberdade nos dá a oportunidade de escolha de uma nova política que conduza à rápida redução das taxas de juros e à expansão da atividade econômica comandada pelas exportações. Para isso é preciso que o governo se convença que a manutenção das altas taxas deixou de ter relevância para atrair capitais externos ou impedir sua saída. Hoje, as altas taxas funcionam como fator de desconfiança na capacidade de ajustarmos a economia, ao jogar dúvida sobre a sustentabilidade da dívida interna. Quanto mais altos os juros, maiores as dívidas dos investidores sobre a capacidade do Brasil honrar suas dívidas.
Nos 48 meses que antecederam a desvalorização cambial o Brasil manteve as maiores taxas de juros do mundo, produzindo uma enorme destruição na indústria, na agricultura, no comércio e o enfraquecimento do sistema bancário e, ao final, a fuga de capitais, a perda de reservas e o declínio da credibilidade na política econômica. Se queremos recuperar a credibilidade e reduzir os custos sociais dos necessários ajustes na economia, o primeiro passo será abandonar a ilusão que os altos juros vão conter a inflação ou atrair capitais. E não devemos nos impressionar com as exigências do FMI. O Fundo tem que ser levado a assinar tantas cartas quantas forem necessárias, na medida em que seus técnicos forem sendo convencidos que a receita não funciona. Isso aconteceu conosco no passado e novamente agora, quando o Fundo foi obrigado a assinar quatro cartas com a Coréia do Sul. O problema, portanto, não é o FMI e sim nos consolidarmos com ele.
Não é certo imaginar que as altas taxas de juros são um fator decisivo na contenção da inflação que seria produzida pela desvalorização cambial. Ela pode subir um pouco no começo, mas depois se estabiliza. O que é certo é que elas aprofundam a recessão. As tensões sociais derivadas dos altos índices de desemprego não nos permitem aceitar a idéia de aprofundamento da recessão. Temos que reorientar nossa economia, portanto, na direção da queda rápida da taxa de juros real e da retomada de níveis mais decentes de atividade econômica.
Não tenho dúvidas que a economia brasileira pode recuperar a credibilidade no exterior e realizar o ajuste com mais rapidez do que as demais economias atingidas pelas turbulências dos mercados financeiros. Mas isso vai depender do seguinte: 1) De nossa capacidade de apoiar o setor exportador e de controlar importações, para gerar o mais cedo possível saldos comerciais que tranquilizem os mercados; 2) De nosso esforço interno para estabilizar a relação dívida interna/PIB; 3) De nossa capacidade de negociar restabelecimento das linhas de crédito comerciais e a rolagem das dívidas de curto prazo, inclusive as do setor privado; 4) Finalmente, da melhoria da capacidade gerencial do governo, sem o que não vamos sair dessa encrenca.
- ANTONIO DELFIM NETTO é deputado federal pelo PPB-SP e ex-ministro da Fazenda e do Planejamento





