Delfim Netto
Delfim Netto
A lição de
São Bernardo
Os trabalhadores da Ford de São Bernardo, na Grande São Paulo, estão oferecendo à sociedade um exemplo valioso de serenidade e determinação diante das enormes dificuldades que estão vivendo com suas famílias desde a antevéspera do último Natal. O movimento de solidariedade que uniu os metalúrgicos listados para demissão e os que ainda conservam seus postos de trabalho não é um acontecimento inédito, mas foge aos padrões habituais. Normalmente a ameaça de ingressar na lista do desemprego inibe demonstrações de solidariedade aos companheiros demitidos, pelo menos na forma corajosa e transparente como as que estamos assistindo.
Na pausa das demissões sumárias, embora não afaste a intranquilidade das famílias dos trabalhadores, este é um fato significativo porque está acontecendo em meio a uma das crises mais profundas que o setor industrial já enfrentou.
O exemplo é importante e deveria motivar outros setores da sociedade que aparentam estar à beira de um ataque de nervos, reagindo tardiamente ao desarme da sobrevalorização cambial e, na direção errada. Os trabalhadores de São Bernardo demonstram uma percepção bem mais realista do alcance das alterações que ora estão acontecendo na política econômica. Na verdade, a queda do antigo regime cambial é um passo importante para desmontar os mecanismos que nos empurraram no desfiladeiro da recessão e do desemprego. O mais desastroso desses mecanismos é a política de juros que manteve por quatro anos as mais altas taxas do universo, a título de sustentar um câmbio artificial.
Com a possibilidade que ora se abriu de voltarmos a ter um câmbio de equilíbrio, retira-se a camisa-de-força que impedia o crescimento das exportações. Não de restabeleceram ainda as condições de isonomia que permitam aos nossos exportadores competir com maior desenvoltura nos mercados externos, mas uma grande desvantagem foi suprimida. De qualquer forma, o crescimento das exportações exercerá um papel fundamental na retomada do desenvolvimento e no aumento da oferta de empregos.
Igualmente, sem a liberação do câmbio, não existia a menor possibilidade de se iniciar um movimento consistente de redução das taxas de juros. Isso não vai acontecer no curso prazo, devido às condições de desequilíbrio nas contas externas do País. Abriu-se, contudo, a perspectiva de queda nas taxas a partir da recomposição dos acordos com o FMI e do restabelecimento de níveis satisfatórios de credibilidade na condução da política. Para isso devem contribuir também as medidas de ajuste fiscal já aprovadas no Congresso. São medidas amargas que tinham que ser autorizadas, diante do desequilíbrio das contas públicas da União, dos Estados e do municípios, causados em boa parte pelos terríveis equívocos da política monetária vigente nos últimos quatro anos.
As dificuldades herdadas dessa política não vão desaparecer de uma hora para outra. A economia ainda estará em recessão nesse primeiro semestre do ano, mas melhoraram as perspectivas de retomada das atividades, a médio prazo, na indústria e na agricultura e em consequência, maior oferta de empregos. Esta parece ser, também, a expectativa que orientou a ação inteligente aos trabalhadores do ABC.
- ANTONIO DELFIM NETTO é deputado federal pelo PPB-SP e ex-ministro da Fazenda e do Planejamento





