Delfim Netto
Sangue
frio
Estamos vivendo um daqueles momentos - que de nenhuma forma é inédito no Brasil - em que a sensação de crise é maior do que a própria crise. Vai ser necessário um pouco mais de frieza e muita paciência para entendermos a natureza do problema que temos que resolver. A primeira coisa que devemos ter em mente é que estamos, hoje, em melhor situação para superar as dificuldades da economia do que - digamos - em dezembro passado, quando estávamos presos na armadilha do câmbio sobrevalorizado. A decisão de liberar a taxa de câmbio e deixar o mercado fixá-la livremente estabelece as condições mínimas para enfrentarmos os desequilíbrios interno e externo da economia.
A segunda consideração é que não tínhamos alternativa. Foi o que nos revelou o senhor presidente quando disse: ‘‘Tomei a decisão de deixar o câmbio flutuar porque esta era a única solução que restava.’’ Na verdade, a escolha era simples: ou deixar o câmbio flutuar... Ou enfrentar a liquidação das reservas e caminhar para a moratória, o que seria uma tragédia. A turbulência que estamos enfrentando decorre do fato que tardamos demais em fazer a correção de rumos no câmbio e de não termos terminado antes um verdadeiro ajuste fiscal. Internamente, há uma excitação adicional produzida pela confusão que domina consultores arrependidos e comentaristas amestrados que durante quatro anos não foram capazes de enxergar o desfecho mais que previsível da política cambial. Isso não teria muita importância, se não tivesse contribuído para esconder da sociedade que a política econômica estava nos conduzido ao desastre e ao pronto-socorro do FMI.
Enfim, por falta de opção, o governo fez o movimento na direção correta, permitindo a flutuação do câmbio. Significa que ele entendeu, também, que o ajuste fiscal sozinho não seria suficiente para restabelecer o equilíbrio interno e externo da economia. Existindo dois problemas que devem ser atacados simultaneamente, um instrumento só não resolve. Quais são esses problemas?
1) O principal problema é o baixo nível do crescimento, responsável pelo enorme desemprego que atinge todas as camadas sociais e as diferentes faixas etárias. O desemprego é a expressão do desequilíbrio interno de nossa economia. O ajuste fiscal ajudará a corrigir o desequilíbrio, reduzindo o déficit das contas públicas e abrindo caminho para a recuperação do setor privado da economia, gerador de empregos.
2) O outro problema é representado pelo déficit em conta corrente que nos últimos quatro anos ultrapassou US$ 100 bilhões. Para enfrentar esse desequilíbrio nas contas externas era necessário corrigir a política cambial, abrindo uma via adequada para a retomada das exportações.
A conclusão desse duplo ajuste - no setor cambial e na área fiscal - permitirá a queda das taxas de juros nos próximos meses, iniciando o desmonte da armadilha que vem tolhendo o crescimento da economia. Não será uma caminhada rápida nem fácil, mas hoje podemos registrar o fato de que se eliminou uma boa parte das contradições de nossa política econômica. Nesse momento, é preciso dar sustentabilidade à nova política, como aliás vem fazendo o Congresso Nacional apoiando as medidas de ajuste fiscal propostas pelo Executivo.
- ANTONIO DELFIM NETTO é deputado federal pelo PPB-SP e ex-ministro da Fazenda e do Planejamento

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