Delfim Netto
Quebrando
as amarras
A decisão de liberar a taxa de câmbio e deixar o mercado e fixá-la livremente foi politicamente correta e deve produzir bons resultados para a economia brasileira ao longo de 1999. Passada a perturbação inicial, causada pela tentativa do Banco Central de manter limites estreitos para a desvalorização e pelas explicações confusas da manhã do dia 13, vai se consolidando a idéia de que o movimento está na direção correta. Foi bom que o presidente tivesse dito a seguir à Nação: ‘‘Tomei a decisão de deixar o câmbio flutuar por que esta era a única solução que restava.’’
A sensação de crise que se seguiu ao anúncio da flutuação decorre de um entendimento equivocado. A crise, na verdade, foi o que aconteceu nesses quatro anos de sobrevalorização do real, com a economia sufocada pela maior taxa de juros do mundo. Não podíamos continuar nesse rumo que nos conduzia inexoravelmente à insolvência. A flutuação do câmbio, embora decidida tardiamente, afastou o risco iminente e deve nos permitir a retomada das exportações, reduzindo o enorme desequilíbrio externo de nossa economia. A alternativa, recusada pelo presidente, era continuar repetindo a desastrosa manobra da elevação dos juros, como se verificou nas três crises anteriores que atingiram o México, os países asiáticos e a Rússia. Se o presidente tivesse continuado a seguir seus conselheiros econômicos, poderíamos estar vivendo a quarta repetição de velho filme: ‘‘Defenda o câmbio com a elevação das taxas de juros, ainda que isso extermine a produção nacional.’’
Devemos ter em mente que a correção da política de câmbio cria a condição necessária, ainda que não suficiente, para o início da recuperação da economia. Temos pela frente um enorme ajuste fiscal a ser realizado, exigindo mais sacrifícios dos trabalhadores tanto do setor privado como público e um grande esforço dos empresários para salvar seus negócios. Exatamente porque tardou tanto a decisão, os custos serão muito maiores do que seriam necessários.
Nesse momento, contudo, é importante a compreensão que, apesar das dificuldades, teremos melhores condições para enfrentar os problemas. Não devemos temer que a liberação cambial venha a estimular um aumento significativo da inflação. Já que não existem os mecanismos de correção monetária e a recessão praticamente eliminou as reivindicações por aumento de salário nominal. O salário real já vem caindo e, o que é pior, acompanhado pelo desemprego. Mas o desemprego deve reduzir-se tão logo as exportações se dinamizem. De outro lado, o efeito da desvalorização sobre a dívida pública deve ser muito menor do que se supõe, devido à possibilidade de redução dos juros nos próximos meses. Sem a correção cambial, os juros jamais cairiam.
Não é um caminho rápido, nem isento de incertezas. Mas, pelo menos, recuperamos a possibilidade de livrar a economia brasileira da armadilha que vem impedindo o seu crescimento, há 48 meses.
- ANTONIO DELFIM NETTO é deputado federal pelo PPB-SP e ex-ministro da Fazenda e do Planejamento

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