DELFIM NETTO
Um pequeno
engano...
Com razoável atraso e forçado pelas circunstâncias (fuga de capitais, perda de reservas e fadiga da política de juros) o governo finalmente iniciou esta semana a correção da desastrosa política cambial. Fez o movimento na direção certa, ampliando a banda cambial para permitir maior flutuação da taxa em busca de seu ponto de equilíbrio. A mudança da política cambial significa que o governo entendeu que o ajuste fiscal, sozinho, não seria suficiente para restabelecer o equilíbrio interno e externo de nossa economia.
Nós temos dois problemas que precisam ser resolvidos: o desequilíbrio interno representado pelo enorme desemprego que atinge todas as camadas sociais, e as diferentes faixas etárias; e o desequilíbrio externo, representado por um déficit em conta corrente que nos últimos quatro anos ultrapassou os US$ 100 bilhões. O ajuste fiscal ajudará a corrigir o desequilíbrio interno, reduzindo o déficit das contas públicas e abrindo caminho para a recuperação do setor privado da economia, gerador de empregos.
A correção do câmbio era absolutamente necessária como passo inicial para se reestabelecer o equilíbrio externo pela única via adequada que é o crescimento das exportações. A correção cambial e o ajuste fiscal se somam para permitir que as taxas de juros, sem o que a economia brasileira não se livrará da armadilha que tolhe o seu crescimento. Felizmente, o governo compreendeu que para enfrentar os dois problemas era necessário acionar os dois instrumentos.
A sociedade brasileira está pagando um preço absurdo pelo equívoco da sobrevalorização cambial, desde o início do programa de estabilização. O presidente Fernando Henrique Cardoso foi convencido - e convenceu a sociedade durante os quatro anos de seu primeiro mandato - que a sobrevalorização do real e a consequente manutenção de altas taxas de juros que eram essenciais para a estabilidade. O custo social dessa crendice foi solenemente desprezado: a destruição de empregos e de empresas, a descapitalização da agricultura, o encolhimento da produção industrial e do setor exportador e a queda dos rendimentos do trabalho.
O desequilíbrio das contas externas se agravou rapidamente no último ano, o que levou o País a recorrer ao pronto-socorro do FMI e a maiores restrições ao crescimento da economia. Como consolo, os brasileiros foram informados pelo novo presidente do Banco Central, Francisco Lopes, que o governo estava sinceramente arrependido do erro que cometeu em janeiro de 1998, quando decidiu pela manutenção de altas taxas de juros para estimular o ingresso de capitais especulativos...
Os trabalhadores que no último ano perderam as condições de sustentar suas famílias, pela supressão de alguns milhares de postos de trabalho, sabem agora que foram vítimas de um pequeno erro de avaliação, apenas....
- ANTONIO DELFIM NETTO é deputado federal (PPB-SP) e ex-ministro da Fazenda e do Planejamento

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