Delfim Netto
Delfim Netto
Exagero de
retórica
Não faz justiça à biografia do Sr. Presidente da República a ameaça de demitir os ministros por ele escolhidos livremente nos partidos que fazem a sua base parlamentar, caso o Congresso não vote apressadamente o ajuste fiscal. S. Exa. não pode ignorar que os votos que elegeram os parlamentares são tão legítimos (e em número superior) quanto é legítima a votação que o conduziu duas vezes à chefia do Executivo. Os deputados e senadores só devem obediência à voz do povo que os escolheu.
Pertenço a um partido, o PPB, que participa da base parlamentar e apoiou vigorosamente as emendas à Constituição que abriram o caminho ao programa de privatizações; deu suporte às reformas da administração pública e da Previdência; ajudou o governo quando negou apoio às medidas mais absurdas e de caráter apenas vingativo em relação ao servidores públicos e aposentados. Fez mais: cobrou insistentemente do Poder Executivo o cumprimento da promessa de apresentar um projeto consistente de reforma tributária, o que o governo não foi capaz de apresentar durante a atual legislatura. E, finalmente, alertou o governo, desde o início do primeiro mandato, sobre a armadilha montada pela desastrosa política econômica que terminou por nos levar ao pronto-socorro do FMI.
Há uma substancial mudança de sentimento entre o início do primeiro e do segundo mandatos. Em janeiro de 1995, tudo era certeza e esperança. O governo, com uma retórica eficiente e certeira tinha nos convencido que sabia o que queria e conhecia o caminho. A eleição no primeiro turno dava ao presidente credibilidade e autoridade para proceder as reformas radicais necessárias para sustentar a arriscada aposta na sobrevalorização cambial que àquela altura já devastara o setor agrícola e prenunciava um desastre futuro.
Não havia oposição. O sucesso do Real no combate à inflação fora tão retumbante que o debate foi interditado pelo florescimento de um pensamento único, ideologicamente sustentado por uma proposição que raiava ao absurdo: o governo sabe-tudo. Ele conhece o caminho. É a luz e inspiração para o desenvolvimento. O seu corolário era que o setor produtivo privado nacional sempre vivera de suas benesses. Era hora de submetê-lo a um regime de emagrecimento: ele só pensa no curto prazo e é terrivelmente guloso.
O governo e o capital estrangeiro vindo com a abertura vão, afinal, educá-lo convenientemente. Esse era papel do câmbio valorizado. A ideologia pervertida (não a teoria econômica) garantia que a désinflation compétitive iria reeducar os empresários a se conformarem com menores margens de lucro, buscarem o aumento da produtividade ou venderem-se aos estrangeiros. E, melhor ainda, iria, pelo desemprego, reeducar os trabalhadores brasileiros e ensiná-los a se conformarem com salários menores. O Banco Central, com sua política de câmbio sustentada pela maior taxa de juros real do mundo, iria criar o brasileiro novo, feito à imagem dos seus gênios construtores...
Por conta de tudo isso, o início do segundo mandato é mais triste: tudo é incerteza. Ele começa com uma trágica disputa entre alguns analistas para qual vai ser a queda do PIB em 1999! Todos nós sabemos que essas previsões não podem ser levadas a sério, porque as séries econômicas não têm uma estrutura interna bem definida. O grave mesmo, é o sinal da mudança. Todos aceitam que o PIB vai cair no primeiro ano do segundo mandato o que pode acontecer ou não, mas cria uma amarga expectativa.
- ANTONIO DELFIM NETTO é deputado federal (PPB-SP) e ex-ministro da Fazenda e do Planejamento





