Delfim Netto
Uma longa
marcha
Um tanto lentamente e com três anos de atraso, as organizações patronais e os sindicatos trabalhistas começam um tímido movimento para demonstrar ao governo a insensatez de sua política econômica.
‘‘A Marcha da Insensatez’’, (‘‘The march of Folly - From Troy to Vietnam’’, traduzido no Brasil pela José Olympio Editora em 1989) da historiadora norte-americana Barbara W. Tuchman, detentora duas vezes do Prêmio Pulitzer, é uma dessas obras fundamentais que não podem deixar de ser lidas por governantes e por quantos detenham algum tipo de liderança nas sociedades. O livro trata basicamente do desgoverno e, numa certa medida da tolerância das sociedades aos abusos de seus líderes. A autora utiliza exemplos clássicos de desastres históricos ‘‘desde Tróia ao Vietn㒒, tentando entender porque razão governos, dispondo de suficientes informações para evitá-los, mantiveram o rumo insensato até o trágico desfecho.
A Sra. Tuchman se refere a diversos tipos de desgoverno, fruto da tirania, da ambição desmedida, da incompetência, dentre outros, para fixar-se numa quarta característica que assim descreve: ‘‘É o desgoverno produzido pela insensatez ou obstinação... quando o interesse de um grupo nacional tende a atingir o bem-estar social e todas as demais vantagens comunitárias; insensatez é a política que, nesse enfoque, conduz a resultados contraproducentes.’
De uma forma educada, podemos admitir qua a política econômica praticada nos primeiros quatro anos de governo tucano conduziu a ‘‘resultados contraproducentes’’. Os números publicados pelo IBGE e pela Fundação Getúlio Vargas no mês de novembro revelam alguns resultados: o desemprego atingiu níveis nunca antes verificados no País, ampliando extraordinariamente a insegurança social; a taxa média da produção industrial no País mostra uma retração de 9,2%, em comparação com os níveis observados em outubro de 1997 (a queda é ainda mais forte em Minas Gerais e São Paulo e atingiu o extraordinário patamar de 32,7% negativos em Pernambuco, criando uma situação potencialmente explosiva); a agricultura, descapitalizada e endividada, vem reduzindo ano a ano a área de plantio e já não produz o suficiente para garantir auto-suficiência em alimentos. Os estoques agrícolas atingiram os mais baixos níveis nos últimos 10 anos. Gastamos em 1998 cerca de US$ 2 bilhões com a importação de 10 milhões de toneladas de alimentos.
Esses ‘‘resultados contraproducentes’’ eram previsíveis e, mais ainda, eram perfeitamente evitáveis. O governo tinha elementos suficientes para avaliar os sérios riscos inerentes à ‘‘aposta’’ que bancou, contra a lógica e contra a boa teoria. Não é crível que o governo acreditasse na própria propaganda, segundo a qual a economia ‘‘estava no rumo certo’’. Os economistas tucanos conheciam os argumentos e os fatos que demonstravam a inconsistência de suas políticas monetária e de câmbio. A sustentação obstinada de altas taxas de juros, para garantir financiamento externo para cobrir os crescentes déficits público e em conta corrente, resultou na destruição de importantes setores da produção brasileira. Mais grave ainda: ao empurrar a economia no despenhadeiro de um recessão desnecessária, criou as condições para uma crescente instabilidade social. Temos aqui um belo exemplo que poderia inspirar um capítulo extra na Marcha da Insensatez.
Apesar dessa constatação nada agradável, mas realista, desejo aos leitores um Feliz 1999. Se puderem, leiam o livro. Isso nos ajudará a melhorar a resistência à inexorabilidade da marcha...
- ANTONIO DELFIM NETTO é deputado federal pelo PPB-SP e ex-ministro da Fazenda e do Planejamento

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