Delfim Netto
Delfim Netto
Na contramão da crise
Alguns fatos da economia mundial: 1) O preço nominal do petróleo caiu para US$ 9 o barril no mercado externo esta semana. É o menor custo de importação (em termos reais) das últimas duas décadas; 2) Às vésperas da introdução da sua nova moeda - o euro - os bancos centrais dos países da Eurolândia reduziram a taxa básica anual de juros para honestíssimos 3%, preocupados em aumentar a oferta de empregos; 3) O Banco Central dos Estados Unidos (Ped) já aplicou três cortes nas taxas de juro nos meses recentes, coerente com o objetivo de manter a economia norte-americana em expansão; 4) Os índices de inflação continuam comportadíssimos na grande maioria das economias do mundo civilizado, inclusive no Brasil.
Com a moeda estabilizada, o Brasil está há quatro anos com problemas de crescimento e sua economia, às voltas com uma crise cambial, caminha celeremente na contramão, rumo à recessão. Curiosamente, os economistas do governo insistem em dizer aos brasileiros que a nossa economia não pode sair de crise por que precisa proteger-se dos efeitos maléficos de uma terrível crise mundial.
Enquanto o Brasil patina e se prepara para encolher sua economia, os países que souberam praticar a combinação correta nas políticas fiscal, monetária e cambial enfrentaram os problemas circunstanciais dos mercados financeiros sem perder o rumo do crescimento. Nos últimos quatro anos, os mercados financeiros viveram períodos de turbulências por causa de dificuldades nas economias mexicana, asiática e russa. Para neutralizar os efeitos dessas turbulências episódicas, os países tinham duas opções de política. Vou citar apenas o exemplo de quatro países que escolheram o mix correto: Austrália, Nova Zelândia, Taiwan e o Canadá.
O que eles fizeram? Para proteger os níveis de emprego de seus trabalhadores e a saúde de sua indústria e de sua agricultura, eles deixaram o câmbio flutuar. São países que têm bancos centrais inteligentes, que não perdem de vista os problemas da economia real, isto é, os problemas de crescimento da economia e, por isso, optaram pela flutuação do câmbio para não ter que elevar as taxas de juro. Se o tivessem feito teriam reduzido o ritmo de crescimento e aumentado o desemprego. Em nenhum desses países a inflação fugiu ao controle. As taxas de inflação continuam supercivilizadas em 1998 (0,9% na Austrália, 1,3% na Nova Zelândia, 2,2% em Taiwan e 1,2% no Canadá).
No Brasil, optaram pela combinação errada de política econômica, ao manter um câmbio artificial, uma política fiscal frouxa e as mais altas taxas de juros do mundo. Ignoramos as questões vitais do crescimento e do emprego. A cada episódio de turbulência nos mercados financeiros, a única alavanca que nossos brilhantes economistas souberam manejar foi a elevação ainda maior das taxas de juro para defender o câmbio, ampliando os efeitos perversos sobre os níveis de emprego e da produção! O mais dramático é que essa manobra vem sendo repetida em nome de perda da estabilidade da moeda, que não sofre nenhuma pressão externa ou interna capaz de produzir a inflação.
O governo tem que ser convencido de que fez a opção errada e que não faz sentido insistir no sacrifício inútil de nossos trabalhadores e empresários.
- ANTONIO DELFIM NETTO é deputado federal pelo PPB-SP e ex-ministro da Fazenda e do Planejamento





