Delfim Netto
O fracasso
anunciado
Acordos firmados pelo governo com o Fundo Monetário Internacional e com os Bancos Centrais de 19 países representados pelo BIS e mais o Banco Central do Japão, devem produzir um temporário alívio nos problemas que afetam as contas externas brasileiras. Não cabe discutir a sua oportunidade, pois estávamos sob risco iminente de ruptura, praticamente sem alternativa. Nossas autoridades econômicas foram obrigadas a aceitar condições draconianas para um ajuste fiscal que no curto prazo vai aprofundar a recessão e tornar ainda mais dramático o problema do desemprego dos brasileiros. Pelos termos do compromisso, a perspectiva para 1999 é de três trimestres de crescimento negativo do PIB.
Poucas pessoas têm dúvida, hoje, que a difícil situação da economia brasileira é o resultado de graves equívocos das políticas fiscal, cambial e monetária do governo. Uma política fiscal frouxa permitiu que se acentuasse o desequilíbrio das contas internas, especialmente do segundo semestre do ano passado em diante. O terrível equívoco na política de câmbio produziu o crescente desequilíbrio externo, impedindo o crescimento das exportações gerando o enorme déficit em conta corrente. Apesar de todos os alertas, o governo se deixou conduzir pela política suicida do Banco Central, que agora assina atestado de falência, ao submeter-se às duras exigências dos acordos com o FMI. E a política monetária limitou-se a um único instrumento, a elevação insensata das taxas de juros, mantidas no mais alto nível mundial por 50 meses consecutivos.
Essas políticas mantiveram a economia brasileira num ritmo lento de crescimento, penalizando a produção e o emprego, e em marcha célere para o desastre cambial. É de difícil compreensão a inércia do sr. presidente da República diante da gestação de uma crise absolutamente previsível. É mais incompreensível ainda a postura de indiferença enquanto cresciam as estatísticas de desemprego, evidenciando a tragédia pessoal que se abatia sobre alguns milhões de trabalhadores nas cidades e no campo.
Quando tentaram alertar o governo sobre os descaminhos da política econômica foram taxados de fracassomaníacos, inimigos do Real, e catastrofistas, entre outros mimos. Ninguém está feliz com o fracasso da política, nem com o fato que teremos de enfrentar um desgastante e minucioso monitoramento da nossa economia por um organismo internacional, conforme anotou a comentarista econômica de um importante jornal, sem esconder o desencanto.
O monitoramento externo não é nenhuma catástrofe, mas produz desgaste político toda a vez que aqui desembarca a missão técnica do FMI para as visitas de inspeção previstas nos acordos. Mais importante que esses pequenos incômodos é a incerteza quanto à validade do sacrifício que se está impondo à sociedade. Não existe experiência no mundo de ajuste fiscal bem-sucedido quando a economia não está crescendo, e o que é pior, quando ele é basicamente centrado no aumento de impostos. Depois de termos sofrido todo o caminho percorrido, ainda vamos ter que fazer a manobra cambial, para poder baixar os juros e retomar o crescimento.
- ANTONIO DELFIM NETTO é deputado federal pelo PPB-SP e ex-ministro da Fazenda e do Planejamento





