Delfim Netto
Delfim Netto
Perdendo a vez
Por que a economia brasileira está indo ao fundo do poço? E por que o governo está sendo obrigado a ir ao Fundo (Monetário Internacional), assumindo compromissos que vão aprofundar a recessão?
Uma boa parte (ou a parte boa) da economia mundial reduziu o ritmo, mas continua crescendo. Dois terços de nosso parceiros no mercado externo estão expandindo o comércio. Os preços do petróleo e as taxas de juros externas, que no passado criaram grandes dificuldades ao nosso desenvolvimento, estão em queda no mundo.
O Brasil não tem aproveitado as condições externas favoráveis ao seu crescimento, por causa da rigidez de sua política de câmbio. Em 1994, quando o real foi sobrevalorizado, as contas de comércio eram superavitárias. Não havia constrangimento externo ao crescimento. A dificuldades externas foram construídas ao longo desses quatro anos pelo desequilíbrio da taxa de câmbio. Os saldos comerciais foram consumidos rapidamente e passamos a acumular déficits, por conta do crescimento incontrolado das importações e a estagnação das exportações. Para financiar esses déficits, construímos um outro déficit muito mais importante, em conta corrente, atraindo capitais mediante a elevação espantosa das taxas de juros. Em quatro anos, o governo Fernando Henrique permitiu que se acumulasse um saldo negativo na conta de pagamentos externos da ordem de US$ 100 bilhões.
Mas não é apenas de US$ 100 bilhões, a dimensão do problema que está nos levando ao fundo (e ao Fundo). As contas internas são um balbúrdia. Durante quatro anos remuneramos o capital externo com as maiores taxas de juros do mundo. Financiamos o déficit em conta corrente emitindo dívida interna, ou seja, o déficit externo foi utilizado para financiar o déficit do governo. Pagando as maiores taxas de juros do mundo, utilizamos os recursos externos, não para investir no aumento da capacidade produtiva mas, sim, para financiar o déficit de governo, quer dizer, o consumo.
É um fato inegável que a barbeiragem cambial produziu o desequilíbrio nas contas externas. Ao não corrigir a variável cambial, restou ao governo mexer na outra variável, que é o nível de crescimento da economia, tentando minimizar a restrição externa. Manteve os juros altos para reduzir a produção e conter importações. Resultou no pior dos mundos: aumentou o desemprego, quebrou empresas, generalizou a inadimplência e não resolver o problema do desequilíbrio externo, que só poderia dar sinais de melhora se as exportações voltassem a crescer, o que não aconteceu.
Em quatro anos de sobrevalorização do real construiu-se uma enorme dívida interna, inflada pelas altas taxas de juros, enquanto o passivo externo cresceu aceleradamente. Temos hoje um passivo externo de US$ 280 bilhões, que é a soma de todas as fábricas, aplicações em Bolsas, Anexo IV e as demais aplicações externas existentes no Brasil. Para remunerar esses ativos estrangeiros, temos que produzir anualmente um excedente da ordem de US$ 21 bilhões.
Com a economia crescendo próximo de zero, com os altos juros dificultando o ajuste das contas internas e com o comércio exterior gerando déficits e não saldos, é natural que haja dúvidas quanto à nossa capacidade de honrar compromissos. Esses são os problemas que produziram a desconfiança dos investidores externos e a necessidade de recorrermos ao FMI. Turbulências nas Bolsas asiáticas, perturbações na economia mexicana e na Rússia são problemas menores que não soubemos enfrentar.
- ANTONIO DELFIM NETTO é deputado federal pelo PPB-SP e ex-ministro da Fazenda e do Planejamento





