Delfim Netto
Delfim Netto
Liquidação
de ocasião
Muito me agradaria poder concordar com o Sr. presidente da República quando ele diz que a política econômica está no rumo certo e que logo teremos condições para a retomada do desenvolvimento. Creio que os leitores também gostariam de acreditar que há perspectivas, a médio prazo, de reversão do processo recessivo a que a atual política nos condenou. Infelizmente, por melhores que sejam as intenções e por mais hábil que seja a retórica governamental, não há como fugir à realidade seguinte: as medidas que o governo tem que adotar diante do constrangimento externo (construído pelos erros de sua própria política), tendem a agudizar o processo recessivo no primeiro semestre de 1999, prolongando seus efeitos até Deus sabe quando.
Na Carta de Intenções negociada com o Fundo Monetário Internacional, o governo se compromete a realizar o ajuste fiscal, aumentando a carga de impostos e cortando gastos de custeio e investimentos públicos. São medidas que obviamente não contribuem para o crescimento. Os parlamentares estão constrangidos a aprová-las, sob pena de ter que compartilhar com o Executivo a responsabilidade pela eclosão quase imediata de uma crise de pagamentos externos de graves proporções. O País tornou-se refém dos mercados financeiros, com a economia presa na armadilha que impede o desenvolvimento, situação produzida durante quatro anos de política cambial destrutiva. Como não restou margem de manobra à política econômica, o povo brasileiro sofrerá uma recessão, oferecida em troca de um prazo de carência para adiar a crise, sem resolvê-la.
Se o governo souber utilizar esse período de carência para enfrentar os problemas reais da economia, o sacrifício não terá sido em vão. O Brasil tem dois problemas fundamentais que precisam ser atacados: o problema do desemprego, que só se resolve com políticas que levem a economia a crescer 6% ou 7% ao ano. Outro problema é o do déficit em transações correntes, cuja solução só começará a ser vislumbrada quando as nossas exportações recuperarem a capacidade de crescer vigorosamente. Para que isso aconteça é necessário criar as condições para que o setor privado volte a investir na produção. Como? Abandonado esse nefasta política cambial, deixando a taxa flutuar até encontrar seu ponto de equilíbrio, o que permitirá a redução consistente nas taxas de juro. Com o câmbio em equilíbrio e os juros a níveis internacionais, estaremos restituindo ao nosso setor privado as condições isonômicas para enfrentar a competição externa, nas exportações e no mercado interno. Este é o caminho do desenvolvimento, o rumo certo da política econômica para enfrentar a questão do desemprego e evitar a liquidação de nosso parque industrial e a destruição de setores inteiros da agricultura e do comércio!
Recentes manifestações das autoridades econômicas não nos permitem acreditar, porém, que elas sejam capazes de enxergar a verdadeiro dimensão do problema brasileiro. Insistem em defender as virtudes da liquidação do patrimônio nacional, público e privado, como proclamou há dias, alegremente, o oráculo do Banco Central, ao chamar a atenção dos investidores estrangeiros para as excelentes oportunidades de compras das empresas brasileiras. É uma liquidação de ocasião, pois as empresas estão fragilizadas pelos altos juros e pela queda do nível da atividade.
Aproveitem a recessão e façam seus lances...
- ANTONIO DELFIM NETTO é deputado federal pelo PPB-SP e ex-ministro da Fazenda e do Planejamento





