Delfim Netto
Delfim Netto
Aposta
perdida
Há cinquenta meses a economia brasileira suporta uma política de altas taxas de juros que exterminou milhões de empregos e levou à ruína financeira milhares de empresas na indústria, no comércio e na agricultura. Essa política nos colocou numa armadilha que impede o crescimento da economia e criou condições de uma dependência externa sem precedentes na história do Brasil. O governo tucano termina o primeiro mandato constrangido a solicitar do Congresso apoio para medidas fiscais que acentuam o caráter recessivo de sua política e com as nossas contas externas severamente monitoradas pelo FMI e pelo Grupo dos Sete Países mais desenvolvidos, o G-7.
O governo fez um grande esforço para convencer a opinião pública que essas circunstâncias decorrem da maior inserção de nossa economia nos mercados financeiros globais e que o País estava preparado para participar do grande jogo e tinha as defesas adequadas em caso de turbulências. Vemos agora que isso era conversa fiada, e que o governo não avaliou adequadamente as consequências de haver embarcado na canoa furada do Banco Central. Já faz um bom tempo que economistas de fora do governo (e mais recentemente, de dentro) vêm tentando convencer o senhor presidente do enorme e inútil custo social decorrente das altas taxas de juros que nos foram impostas para sustentar a sobrevalorização cambial.
Convencido que sua reeleição dependia da estabilidade e que esta derivava da sustentação política cambial a qualquer custo, S. Exª bancou a aposta irresponsável dos nouveaux économistes. Reelegeu-se, mais provavelmente se reelegeria da mesma forma pela confiabilidade de seu discurso e pelo fato de não ter tido adversário. Inicia um segundo mandato com a credibilidade abalada e na obrigação de pedir aos eleitores que aceitem de bom grado o monitoramento externo e se conformem com novos aumentos de impostos e com as medidas recessivas que vão aumentar o desemprego e cortar o salário real. Nas dificuldades acrescidas que terá que enfrentar em 1999, com a recessão da economia, o eleitor certamente se lembrará da solene promessa: Quem terminou com a inflação, vai terminar com o desemprego...
As dificuldades que estamos vivendo com a queda do nível da atividade e aumento do desemprego (e que infelizmente devem se acentuar neste primeiro semestre), decorrem da uma desastrada opção de política econômica. Nesses cinquenta meses, houve largos períodos de relativa tranquilidade nos mercados financeiros mundiais. Com a estabilidade alcançada nos dois primeiros anos, o governo poderia ter escolhido entre dois objetivos: defender o câmbio à custa das flutuações do nível de emprego ou defender o emprego e deixar o câmbio flutuar. A opção inteligente teria sido a segunda, permitindo a retomada das exportações, a queda consistente das taxas de juros e a recuperação dos níveis da atividade econômica e do emprego.
Fizemos a escolha insensata, penalizando o crescimento e ampliando o constrangimento externo. No momento, vamos ter que engolir um duro ajuste fiscal que vai permitir baixar um pouco as taxas de juros, mas ainda assim mantendo níveis escorchantes para o setor produtivo. Só num segundo momento, quando realizamos a correção cambial, as taxas de juros voltarão a níveis civilizados.
- ANTONIO DELFIM NETTO é deputado federal pelo PPB-SP e ex-ministro da Fazenda e do Planejamento





