Delfim Netto
Delfim Netto
A crise e
os fatos
No Brasil, infelizmente, os fatos tornam-se visíveis somente nas crises... O arrocho fiscal que o governo quer aprovar a toque de caixa neste final de ano é produto de uma nova crise, inútil, desnecessária, antecipada por inúmeros fatos que as lideranças do empresariado, do sindicalismo e do corpo político, além de figuras proeminentes do jornalismo, recusaram-se a enxergar. Os fatos só não eram preocupantes para os estrategistas da especulação financeira que se instalaram no governo, cegos pelo desvio ideológico que domina a sua formação acadêmica. A grande maioria do povo brasileiro foi mantida à margem dos fatos pela ação demolidora do governo nos meios de comunicação de massa, onde os fatos viram segredo, na lúcida expressão de Roberto Mangabeira Unger, em seu artigo da última terça-feira na Folha de S.Paulo.
Mais grave que a crise é a forma como os teólogos da especulação financeira pretendem enfrentá-la, já com o aplauso antecipado de seus áulicos tupiniquins, embevecidos com o apoio externo ao pacote 51-B. Esta segunda versão do 51 é lamentável, porque suas medidas mais fortes empurram a economia na direção contrária à solução dos dois problemas que realmente interessam aos trabalhadores e as empresas brasileiras.
Nós temos dois grandes problemas: um enorme desemprego e um mortal desequilíbrio externo. O pacote não contém uma só medida capaz de reduzir o desemprego. Pelo contrário, o desemprego vai se ampliar, com o aumento dos impostos e o corte de gastos. Como aperitivo, corta o salário real dos trabalhadores do setor público. O pacote vai também na direção oposta à solução do outro grande problema, que é o desequilíbrio externo: ele contém um enorme viés antiexportador, representado pelo aumento da CPMF.
O pacote 51-B vai aumentar o custo de todas as importações, com impostos em cascata, não compartilhados com Estados e municípios. Reduz ainda mais as condições de competição de nossos produtos nos mercados externos. Talvez por causa disso o pacote esteja causando tanta satisfação no exterior, não apenas nos rentistas, mas também em nossos concorrentes comerciais...
Aumenta a alegria no exterior, mas aumenta também a indignação interna. A voz do trabalhador continua abafada pelo medo do desemprego mas, depois de longo período de silêncio, o empresariado finalmente parece disposto a sair da casca do ovo e reagir, como nas recentes manifestações do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (IEDI) e da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).
Nossa economia está crescendo a menos de 1% e caminha para um crescimento negativo em 1999. A recessão não resolve nenhum dos nossos problemas: 1) Aumenta o desemprego; 2) Dificulta o equilíbrio fiscal; 3) Mesmo que os juros baixem à metade ainda estarão longe de permitir exportações competitivas, o que manterá o desequilíbrio externo.
O Congresso deve exigir do governo que explique por que deixou acumular um déficit público de 7,5% do PIB, quando há quatro anos recebeu a economia com superávit primário. E explique também por que persistiu nesses quatro anos numa política de câmbio equivocada, impondo à sociedade taxas de juros homicidas e agora pretende corrigi-las às custas de mais desemprego e mais endividamente externo.
- ANTÔNIO DELFIM NETTO é deputado do PPB-SP e ex-ministro da Fazenda e do Planejamento





