Um aeroporto fechado por causa da neblina impediu-me de chegar a Chapecó, quinze dias atrás, onde tinha um encontro marcado com lideranças políticas e da agroindústria de Santa Catarina. Tivemos que pousar na vizinha Pato Branco, no Estado do Paraná, onde as condições meteorológicas eram favoráveis. Eu tinha lido na véspera na ‘‘Folha de S.Paulo’’ um interessante comentário do jornalista Luis Nassif sobre a atividade inovadora que vinha sendo realizada naquela cidade, no campo da educação pública, sob a liderança do prefeito Alceni Guerra.
O artigo enfoca um aspecto da vida brasileira que habitualmente não ocupa espaço na mídia, mormente nas grandes cidades, onde os temas dominantes, hoje, são a violência e a insegurança que acompanham as 24 horas da vida dos cidadãos. Foi muito interessante poder comprovar in loco, a pacífica revolução educacional que se iniciou há quatro anos em Pato Branco e hoje já atrai a parceria de 45 municípios da região, com o objetivo comum de ampliar os níveis de conhecimento dos cidadãos.
O primeiro lance foi a implantação do regime de tempo integral para todas as crianças em idade escolar. Os alunos do ciclo básico passaram a ter oito horas diárias de estudo, com três refeições por dia. No primeiro ano deste programa, a prefeitura destinou 40% da arrecadação em educação, no segundo e terceiro anos 30%. A partir daí convocou o setor privado para assumir parte dos gastos, obtendo a adesão das associações de empresários, clubes, grupos comunitários e, com o tempo, de praticamente toda a sociedade.
Essa adesão permitiu redirecionar recursos para investimentos em outras áreas (transportes públicos, saneamento etc.), comprometendo apenas 20% da receita com os gastos no ensino básico, mas sem prejuízo do regime de tempo integral na cidade e até mesmo sua extensão à zona rural. Hoje, não há criança na rua e nem se explora o trabalho infantil neste município de 60 mil habitantes.
Devido à frequência nas escolas em tempo integral, ao fornecimento de alimentação e à introdução de hábitos de higiene, o atendimento de crianças nos postos de saúde dos bairros mais pobres reduziu-se em 60% e, logo no primeiro ano, caiu 80% o número de infrações de adolescentes na cidade.
Programas especiais de atualização dos professores e de valorização de seu trabalho permitem que eles se dediquem ao ensino em tempo integral, o que proporciona um bom nível de aproveitamento dos alunos.
Tão importante quanto essa revolução educacional foi o estabelecimento, com o apoio do governo estadual, de um pólo tecnológico eletroeletrônico que já começa a revelar economias de aglomeração atraindo mais empresas que se suprem do capital humano que se acumula na região. Superada a massa crítica necessária, Pato Branco vai se converter num pólo de desenvolvimento que testemunhará a importância do acidente histórico (um prefeito) na teoria da localização.
Ao contrário do que podem imaginar os mais céticos habitantes das grandes cidades, esta é uma receita que não precisa necessariamente se restringir aos pequenos burgos do País.
- ANTONIO DELFIM NETTO é deputado federal pelo PPB-SP e presidente da Comissão Permanente de Finanças e Tributação

mockup