Delfim Neto
Na reunião do FMI em Washington, semana passada, o ministro da Fazenda do Brasil criticou os organismos internacionais pela demora em socorrer a combalida economia argentina. É do interesse brasileiro ajudar o país vizinho a superar a crise que já causou enormes prejuízos ao comércio regional e da qual muito provavelmente ele não conseguirá libertar-se sem o suporte externo. Ao sugerir, porém, que o FMI organize um mega-pacote de ajuda, a exemplo dos que foram utilizados com sucesso para resolver crises em diversos países emergentes (dentre os quais o Brasil), o ministro foi menos feliz.
Se observarmos os resultados dos programas de ajuste impostos pelo FMI a países como Rússia, Indonésia, Tailândia e Coréia, por exemplo, não há nenhuma razão para achar que aqueles mega-pacotes foram bem sucedidos, muito pelo contrário. Mesmo no caso brasileiro quando o FMI foi forçado pelo Departamento do Tesouro dos EUA a organizar um empréstimo de US$ 45 bilhões em 1998, às vésperas da reeleição é certamente um exagero falar em sucesso. Até a undécima hora, o FMI sustentava que nossa economia seria destruída se alterássemos a política cambial e chegou a sugerir como alternativa a dolarização!
O que nos salvou foi a pressão do mercado que produziu a desvalorização do real e nos levou a adotar o sistema de câmbio flutuante. A verdade é que o FMI nos ajudou a superar a crise cambial fornecendo recursos para garantir o pagamento aos credores. E o que restou do pacote?
Após quatro anos de rigoroso cumprimento dos acordos com o FMI, a economia brasileira apresenta os seguintes resultados: um ajuste fiscal ainda precário, sustentado por impostos de péssima qualidade; uma dívida interna crescente de R$ 580 bilhões, algo como 55% do PIB; um passivo externo de US$ 400 bilhões (2/3 do PIB); taxas de crescimento medíocres, de 0,8% do PIB anual, per capita; taxas de juros que desestimulam o crescimento da produção e das exportações; e um nível de desemprego sem precedentes.
É esse quadro nada lisongeiro que o senhor Cláudio Loser, diretor do FMI encarregado dos problemas da América Latina, qualificou de círculo virtuoso, ao dissertar na terça-feira em Washington sobre o desempenho da economia brasileira. Após fartos elogios, o senhor Loser, cautelarmente, tratou de preparar o seu hedge: advertiu que o Brasil tem um grave problema, na relação Dívida Líquida/PIB, que põe em risco todos os progressos alcançados. Foi como tirar o chantilly do bolo...
Seria interessante, então, descobrir em que ponto no circulo virtuoso se poderia inserir a solução para os problemas da dívida, dos altos juros e impostos, do baixo crescimento e do elevado desemprego que serão herdados pelo próximo governo.
ANTONIO DELFIM NETTO é deputado federal pelo PPB-SP





