Delfim Neto
O mercado e o povo
É quase impossível deixar de tratar do problema argentino esta semana. Depois de 10 anos, aconteceu finalmente a morte oficial do regime de câmbio que inicialmente ajudou a terminar a hiperinflação, mas que depois tornou-se o instrumento de sustentação de uma política determinada pela submissão dos interesses do setor produtivo argentino aos setores financeiros, internos e do exterior. Já tive oportunidade de comentar os problemas causados pela adoção do antiquado regime do currency board e pela insistência na manutenção meio suicida da paridade cambial. Há pelo menos quatro anos a economia foi jogada numa recessão que empobreceu uma população orgulhosa e educada, mas que não entendia o que se passava.
Foi esse povo empobrecido que afinal perdeu a paciência, ocupou as ruas e a poder de panelaços e quebra-quebras derrubou o presidente eleito e seu teimoso ministro da Economia. E ainda impediu, no curto espaço de 10 dias e pelo mesmo processo, a permanência no poder de mais três presidentes designados pelo Congresso, até a eleição indireta de Eduardo Duhalde, na primeira semana do ano. Ao contrário dos três interinos que ainda acreditaram na mística da conversibilidade, Duhalde tratou de anunciar a desvalorização do peso, antes mesmo de tomar posse. O novo ministro da Economia, Jorge Lenicov, está tentando suavizar o desmonte da armadilha cambial mediante a convivência temporária de duas taxas de conversão da moeda, uma de 1,40 pesos por dólar e outra flutuante. Obviamente, o sistema caminhará para uma única taxa de câmbio, sujeita à flutuação, como no caso brasileiro.
Não se deve esperar um avanço muito rápido na solução dos problemas econômicos de modo a aliviar as enormes tensões sociais que dominam o cenário argentino. A recessão prolongada debilitou o organismo industrial, fragilizou a agricultura e desorganizou o comércio. O padrão de consumo dos argentinos caiu fortemente nos últimos anos. A reversão para um processo de crescimento demanda tempo e ainda vai exigir um bom período de sacrifícios de uma população cansada, impaciente, que passou a desprezar o processo político formal.
A Argentina foi vítima do que se poderia chamar de excesso de mercadismo: uma política econômica vendida à população como a última palavra em matéria de ciência praticamente infalível mas que na verdade representava os interesses dos mercados financeiros. A estabilidade dos preços, a manutenção da paridade (um peso igual a um dólar) e a conversibilidade plena da moeda, foram sustentadas com doses generosas de capitais externos, fazendo a alegria da banca, sob os aplausos dos organismos internacionais e dos economistas mercadistas. Não importava muito a destruição do setor produtivo, a redução dos empregos e o aumento da pobreza porque, com o tempo, a produtividade cresceria, a economia voltaria a se desenvolver e a dívida seria honrada, sem maiores problemas.
A realidade é que, com o tempo, a Argentina tornou-se insolvente e o povo, com a paciência esgotada, empobrecido e inconformado, foi às ruas exigir o fim do mercadismo delirante...
ANTONIO DELFIM NETO é deputado federal (PPB-SP)





