Delfim Neto
Aval necessário
O novo acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI), anunciado no início da semana passada pelo ministro da Fazenda, certamente vai produzir o efeito de uma dose de calmante nas expectativas dos agentes financeiros em relação ao Brasil.
O mercado vai perceber que com essa disponibilidade de US$ 15 bilhões, o País praticamente fecha as suas contas de 2001 e 2002. É evidente que isso depende de como vão se comportar daqui em diante os investimentos diretos e as exportações e importações. Mas a ajuda do FMI traz um grande alívio para as contas nacionais.
A divulgação do acordo foi feita de forma esperta (primeiro, os benefícios, depois uma leve menção aos custos), mas muito tranquila. Ponto a favor da imprensa, que parece haver entendido que politizar o tema só produz calor e nenhuma luz, além de ser uma atitude meio subdesenvolvida.
Tenho insistido há muitos anos que as negociações com o Fundo são eminentemente técnicas e que portanto a discussão deve ficar nesse campo. A tentativa de extrair dividendos políticos só tem contribuído para confundir o entendimento das pessoas sobre as consequências dos acordos nos desdobramentos da política econômica.
O governo demonstrou prudência ao antecipar as negociações, diante do posicionamento dos mercados em relação ao chamado Risco Brasil. Gostemos ou não, nossos problemas são confundidos com a grave situação argentina.
Na semana retrasada, os papéis brasileiros estavam avaliados como o sexto maior risco do mundo: atrás de nós vinham Argentina, Equador, Nigéria e mais dois não citáveis... O acordo com o FMI é importante, porque nos avalizará junto ao sistema financeiro internacional.
Mas existem os custos. Não são fáceis as condições impostas ao Brasil e resultarão em custos sociais significativos. Vamos ter que fazer sacrifícios, ampliando o esforço fiscal para alcançar superávits primários de 3,35% do PIB este ano e 3,5% no ano que vem.
O Fundo impôs um decréscimo na relação dívida líquida/PIB (que estava escapando ao controle e já atingia 53% do Produto), para voltar ao ''nível de segurança'' de 50%. Ninguém sabe bem porque tem que ser esta, a relação, mas foi inventada por eles, publicada num texto em inglês e aceita pelo mercado: hoje, passou a ser uma constante, igual àquela do Newton, de 9,8 metros por segundo ao quadrado.
De qualquer forma, um desequilíbrio nessa relação poderia colocar o País numa situação ainda mais delicada na percepção dos mercados. É preciso dizer com clareza o seguinte: o Brasil não pode ter seus riscos aumentados.
Significa, com toda a crueza, que não podemos nos dar ao luxo de que o mercado tenha mais dúvidas sobre o estado de nossas contas, porque, se houver dúvidas, nem mesmo essa ajuda do fundo será suficiente para a travessia. Isso é válido, para esse governo e para os próximos...
- ANTONIO DELFIM NETTO é deputado federal pelo PPB-SP
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