O governo solicita a compreensão dos brasileiros e o presidente Fernando Henrique Cardoso foi à TV pedir a cooperação da sociedade para evitar o apagão energético. Compreensão esta meio difícil, mas todos teremos que colaborar, porque não há alternativa.
A realidade é a seguinte: não há energia disponível. Precisamos cortar 20% do consumo e devemos estar preparados para um novo tarifaço que parece inevitável. E contar com uma boa precipitação pluviométrica no final do ano para evitar apagões não programados, que seriam uma tragédia para a economia brasileira.
Infelizmente o corte de energia não é o único fator de instabilidade na economia. O setor produtivo está sendo apertado pela incompreensão da política do Banco Central, que aumentou os juros e não coíbe a especulação desenfreada dos bancos no mercado cambial.
A acumulação desses três fatores – o corte de energia, a alta dos juros e a elevação da taxa de câmbio – está tornando inviável a produção industrial. Criou-se um clima de incerteza e cresce a insegurança no meio empresarial. Significa que estamos destruindo todo o esforço realizado nos últimos dois anos na recuperação da economia.
O governo continua prisioneiro de uma política dedicada exclusivamente a manter o superávit fiscal primário, na tentativa de impedir o crescimento da relação Dívida/PIB. Mas a dívida interna voltou a crescer pelo efeito combinado da elevação dos juros e do câmbio.
A dívida externa também cresce e aumenta o passivo externo líquido. São fatos que nos levam de volta a uma situação muito delicada, diante da perspectiva de queda na taxa de crescimento do produto e dos níveis de emprego.
A inquietação aumenta quando se percebe que persistem falhas de coordenação na administração federal, que tem uma grande dificuldade em atacar os problemas na sua origem.
A crise energética é resultado dessa descoordenação, pois os setores que tinham as informações não foram capazes de sacudir a letargia dos altos comandos antes que ela se consumasse. Nos últimos quatro anos – e até um pouco antes – não faltaram estudos e advertências mostrando a disparidade entre o crescimento da capacidade instalada e o consumo de energia.
Era evidente que tão logo o crescimento da economia se acelerasse iria faltar energia. Mas nada foi feito, a não ser a propaganda de projetos de construção de usinas, sem definição de recursos e sem delegar as responsabilidades por sua execução.
Das 49 termelétricas prometidas há dois anos, apenas três foram construídas, uma já se encontra em funcionamento e outras duas que talvez sejam concluídas este ano. A Petrobras tem obras em andamento, mas com previsão de entrega no final de 2002. O atraso do programa de investimentos em termelétricas também se deve à falha do governo em não regulamentar até hoje a questão do custo dos insumos.
- ANTONIO DELFIM NETTO é deputado federal pelo PPB-SP
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