Delfim Neto
Houve um evidente exagero, semana passada, no modo como reagiram os agentes do mercado em relação às expectativas de inflação, após a decisão do Banco Central de elevar a taxa básica de juro para 15,75%. Não foi muito feliz o banco ao comunicar as razões da medida, o que resultou numa preocupação, a meu ver excessiva, com o comportamento da inflação este ano. Existe uma certa incompreensão a respeito da meta de inflação: ela não é um número fixo de 4%, mas um intervalo entre 2% e 6%, com um ponto central de 4%. O problema é que, após um período em que as expectativas se mantiveram estáveis em torno dos 4%, foi preciso corrigi-las para um nível ligeiramente superior. Mas isso não significa que o objetivo de permanecer naquele intervalo tenha que ser abandonado. Com a economia desindexada, sem a correção monetária, a projeção de uma inflação de 4,8% é plenamente aceitável. Na realidade, a inflação só poderia crescer se houvesse um grande distanciamento entre oferta e procura, com a procura crescendo muito mais depressa que a oferta e isso claramente não está acontecendo.
O fato que não foi bem explicado é que a decisão de subir os juros não foi tomada apenas para manter a inflação sob controle. Ao elevar os juros, o Banco Central pretende conter um pouco o ritmo de crescimento da economia, preocupado com a evolução das contas externas do País. O crescimento mais rápido da economia está produzindo um aumento no déficit em conta corrente que precisa ser financiado. Novamente, estamos diante do velho problema do constrangimento externo limitando as possibilidades de crescimento do País: construímos um enorme passivo externo graças à antiga política cambial; não conseguimos reverter os saldos negativos no comércio exterior; e uma conjuntura externa menos favorável reduziu as perspectivas de ingresso de investimentos diretos este ano.
A ação do Banco Central foi preventiva, diante da possibilidade de que o financiamento do déficit em conta corrente se tornasse problemático com o atual ritmo de crescimento do PIB. Ao elevar as taxas de juro, o governo emite o sinal de que precisa reduzir o ritmo de crescimento para atender a dois objetivos: conter o aumento do déficit em conta corrente e cortar a possibilidade de uma inflação de demanda. É evidente que a razão principal não foi o risco de uma alteração do núcleo da inflação, mas sim o risco de problemas nas contas externas. Do ponto de vista macro, talvez não houvesse alternativa. Do ponto de vista da microeconomia, embora não se imagine que o movimento deva se repetir, a elevação dos juros tem consequências graves em todo o setor privado da economia: inibe o aumento da produção, retarda investimentos e faz retornar a ameaça de crescimento do desemprego.
- ANTONIO DELFIM NETTO é deputado federal (PPB/SP), professor da Faculdade de Economia e Administração da USP, ex-ministro da Fazenda, Planejamento e Agricultura





