Delfim Neto
Não vejo nenhum mal nas comemorações que o governo promove na esteira da evidente melhoria no comportamento de nossa economia. Há exageros, mas enfim é difícil moderar a dinâmica das ações da propaganda, aliás desempenhadas por profissionais altamente competentes.
Tem sintonia com o sentimento popular, pois em sua maioria os brasileiros têm aquela alma boa que os faz reagir com entusiasmo aos primeiros sinais de cura para a amargura dos anos recentes. Mas é preciso cuidado para não perdermos contato com a realidade, porque a barra ainda está pesada para um enorme contingente de trabalhadores sem trabalho e principalmente para aqueles jovens que ainda enfrentam enormes dificuldades para iniciar uma carreira que lhes prometa a realização profissional.
Todos sabemos que só a continuidade do crescimento, em níveis bem superiores à atual taxa de 4%, poderá reverter esse quadro. É preciso estar atento, portanto, aos problemas que ameaçam essa continuidade, a começar pela situação de fragilidade que ainda não superamos no setor externo.
Nos últimos cinco anos construímos a estabilidade, mas deixamos que se construísse em paralelo uma enorme dívida externa. Desde a mudança da política cambial, em janeiro de 1999, melhorarmos consideravelmente as condições de financiamento do déficit em contas correntes, pois estamos cobrindo o buraco com a entrada de investimentos diretos. Nosso crédito externo é razoável, mas não podemos ignorar o fato que somos um país de renda média baixa, tremendamente endividado.
A propaganda oficial é eficiente, mas ela não pode ir ao exagero de tentar nos convencer que o crescimento de 4% ao ano é suficiente para resolver os problemas de emprego dos brasileiros e melhorar a distribuição da renda. Após cinco anos de estagnação, a renda per capita no ano passado cresceu 2,4%. É uma grande mistificação dizer que o crescimento da renda per capita dos brasileiros, hoje, se equipara às taxas observadas nos anos 70 (quando a expansão do PIB chegou a atingir picos de 14%!), porque os índices de natalidade caíram pela metade.
Na realidade, naquele período, o crescimento médio do PIB foi de 7% ao ano, com uma taxa de crescimento populacional de 2,6%, o que significou um aumento de renda per capita de 4,5%, praticamente o dobro da atual!
Essa diferença significa o seguinte: naquele período, a renda dos brasileiros dobrava a cada 10 anos; pelo atual ritmo, levaremos 50 anos para produzir o mesmo resultado. Quer dizer que, se nos conformarmos com o festejado crescimento de 4% anuais, nem daqui a um século deixaremos de ser classificados entre os países de renda média baixa. É preciso convencer disso os marqueteiros e, em especial, o nosso presidente.
É preciso convencê-lo, inclusive, de que o fator que nos impede de crescer 6% ou 7% ao ano é o constrangimento representado pelo déficit estrutural do balanço em contas correntes.
E que isso só vai ser resolvido com um vigoroso aumento das exportações. Para que isso aconteça, basta que o presidente decida engajar de fato o governo no suporte ao setor privado exportador. E ele pode começar afastando os obstáculos que seus burocratas colocam à votação da reforma tributária no Congresso, que pretende reduzir os impostos nas exportações.
Afinal, foi o próprio presidente que, em sua recente viagem ao exterior, deslumbrou-se com a performance dos exportadores coreanos, afirmando: Agora entendi por que não se deve cobrar imposto sobre as exportações. É só transformar o deslumbramento em ato...
- ANTONIO DELFIM NETTO é deputado federal (PPB-SP), professor emérito da Faculdade de Economia e Administração da USP e ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento
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