Delfim Neto
O governo canadense impôs pesados prejuízos à economia brasileira ao suspender as importações de carne bovina alegando o perigo de contaminação de nosso rebanho com a doença da vaca louca. Alguns desses prejuízos são mensuráveis de imediato e outros só poderão ser dimensionados mais adiante, depois que se avaliar o estrago produzido em todos os setores envolvidos na comercialização de carnes.
Os criadores de gado fizeram as contas e, de acordo com a avaliação do economista Carlos Viacava, presidente da Associação do Nelore, já contabilizam uma perda patrimonial da ordem de US$ 2,5 bilhões, devido à queda abrupta no preço da arroba do boi, que atingiu 7% em apenas uma semana. Já estão sofrendo igualmente as consequências da felonia canadense, os trabalhadores dispensados ou colocados em férias compulsórias devido à redução dos abates nos frigoríficos cujos contratos de exportação estão suspensos. Estas situações deverão ser corrigidas esperamos que em curto prazo mas o fato é que o prejuízo está consumado.
O comportamento desleal do governo canadense nos atinge no momento em que o Brasil realiza um grande esforço de recuperação dos mercados para nossas exportações. Ainda temos uma balança comercial negativa e carregamos um déficit que se acumulou no período 1995/99 devido à política suicida de câmbio fixo.
O setor exportador de carne sofreu, como todos os demais, mas iniciou uma franca ofensiva de vendas a partir da correção da política cambial, obtendo resultados importantes nos últimos 12 meses.
A carne brasileira é reconhecidamente de excelente qualidade e nossos exportadores vinham retomando sistematicamente os mercados perdidos. A divulgação das alegações canadenses jogou uma dúvida sobre a sanidade de nosso rebanho.
A exemplo de Estados Unidos e México que por força do regulamento comum são obrigados a acompanhar o parceiro do Nafta meia dúzia de países nossos clientes suspenderam preventivamente as importações e provavelmente só as retomarão depois da inspeção sanitária exigida pelos canadenses. E ainda vai demandar algum tempo até convencermos todos os nossos parceiros que a suspeita não tem nenhum fundamento.
Não creio que o Canadá retire o embargo antes de concluído o relatório da missão técnica, porque isso comprovaria que se tratou de represália pelas derrotas da Bombardier na competição com a Embraer.
O mais provável é que eles aguardem os resultados da inspeção para depois dizerem que não teriam agido como agiram se tivéssemos esclarecido as dúvidas que levantaram há alguns meses. Eles vão tentar salvar a face. Mas o prejuízo que causaram vai marcar para sempre o relacionamento entre os dois países.
- ANTONIO DELFIM NETTO é deputado federal (PPB-SP), professor emérito da Faculdade de Economia e Administração da USP e ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento
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