Delfim Neto
Não faz muito sentido falar em crise cambial, na vigência do regime que adotamos desde que foi superada a turbulência de janeiro de 1999, quando o real se desvalorizou. Temos um sistema de câmbio flutuante e o que pode haver é uma elevação do preço do dólar se a demanda for maior do que a oferta da moeda norte-americana. Algumas pessoas têm dificuldade em entender que no câmbio flutuante as taxas flutuam, como tem que ser. Mas isso não significa nenhum tipo de crise cambial.
Não quer dizer, porém, que devemos permanecer absolutamente indiferentes ao fato de que as exportações não estão crescendo como deviam diante do crescimento das importações. Não fizemos, na realidade, um esforço suficiente para alcançar superávits importantes na balança comercial e este é um fato preocupante. Aparentemente é essa a leitura que deve ser feita do recente alerta do Ministério do Desenvolvimento sobre o comportamento de nosso comércio exterior e a questão cambial.
O que está acontecendo é que, desde que a antiga política cambial foi abandonada, o governo agiu como se a simples correção do erro anterior fosse suficiente para reativar o setor exportador e os problemas da balança estariam automaticamente eliminados. Está mesmo na hora de fazer o mea-culpa.
Nos últimos cinco anos, o governo assistiu impassível à desorganização do setor exportador e é natural que os empresários estejam reticentes diante dos riscos inerentes ao comércio exterior. Eles precisam de demonstrações efetivas de que o governo está disposto a compartilhar esses riscos, com disposição de enfrentar possíveis reações da concorrência ou as caretas dos organismos internacionais.
Nesse momento, por exemplo, estamos assistindo a uma intensa atividade de empresas canadenses e alemães, com suporte dos respectivos governos, procurando atrair para seus países uma empresa de fibras óticas de Taiwan. O objetivo é instalar uma nova planta destinada a ampliar a presença de seus produtos no mercado internacional.
Vale tudo nessa disputa: oferta de vantagens locacionais, facilidades de crédito, subsídios, enfim, alemães e canadenses não medem esforços para conquistar os fabricantes chineses, ativos exportadores. O Brasil não demonstra interesse, porque nossos neocolonizados economistas consideram uma grave heresia, um erro gravíssimo voltar à velha política de subsidiar exportações... A ciência moderna proíbe qualquer interferência nas atividades privadas da economia... O setor exportador tem que andar com as próprias pernas... Mas são as pernas desses economistas que tremem de medo de uma crise cambial...
É por causa dessa ideologia canhestra que vamos perdendo as oportunidades. Não damos suporte às empresas aqui instaladas que desejam exportar e que já demonstraram no passado que são capazes de fazê-lo, bastando que lhes garantam o apoio que os demais governos oferecem aos concorrentes e não atraímos as multinacionais que podem colaborar para resolver os problemas externos que estão se avolumando.
- ANTONIO DELFIM NETTO é deputado federal (PPB-SP), professor emérito da Faculdade de Economia e Administração da USP e ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento
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