Não creio que haja mais dúvidas que uma boa parte dos recursos fornecidos pelo governo às diversas ramificações do MST têm um destino, pelo menos, obscuro. Isso é dito dessa forma elegante para não melindrar os pobres agricultores obrigados a contribuir com o dízimo, cobrado por lideranças malandras conluiadas com agentes do próprio governo.
Um governo que se curvou à chantagem das mais espertas cabeças do movimento, negociou com elas e aceitou a sua intermediação para a liberação de polpudos recursos, em troca de cumplicidade na montagem da grande farsa que os marqueteiros oficiais chamam de ‘‘reforma agrária’’... E continuaria liberando os recursos sem se preocupar em fiscalizar sua destinação, não fosse o escândalo produzido pelas denúncias de malversação publicadas na imprensa.
Há coisa de ano e meio escrevi um pequeno comentário em que tentei mostrar o caminho absurdo que estávamos trilhando no trato da questão fundiária: ‘‘O Brasil – dizia – é o único país do mundo onde os fazendeiros pagam imposto sobre a propriedade rural para vê-la protegida e assistem à utilização desse imposto no financiamento da invasão e da destruição do Estatuto da Propriedade Privada.’’
Recursos federais, como o ITR, foram repassados ao Incra, de onde saíram para financiar o movimento armado que invade as terras dos próprios fazendeiros que respondem pela arrecadação do imposto! O braço do governo financiou a agitação, imaginando manter o movimento sob controle enquanto pudesse corromper alguns de seus dirigentes.
O governo levou isso longe demais e acabou sendo chantageado. Foi obrigado a reagir, diante da ameaça de invasão da fazenda do presidente, manifestação radical absolutamente despropositada e do grito de guerra: ou o dinheiro reaparece ou vamos incendiar o campo...
Para essa reação desempenhou um importante papel a magnífica reportagem da ‘‘Folha de S.Paulo’’ (em 8 de outubro), de autoria do jornalista Josias de Souza, que foi às fontes, ouvindo os assentados e recolhendo impressionantes depoimentos da espoliação a que são submetidos.
A força da matéria é que ela documenta a armação conjunta de delegados do MST e agentes do governo para obrigar os humildes agricultores a pagar comissões sobre os empréstimos recebidos.
Esses fatos foram comprovados em diversos assentamentos do MST no Paraná, em São Paulo, na Bahia, em Mato Grosso do Sul... Quem se recusasse a pagar o ‘‘pedágio’’ exigido pelos agentes era ameaçado de expulsão e de corte dos créditos oficiais. Em alguns casos, a ‘‘tenebrosa negociação’’ era concluída nas próprias agências do Banco do Brasil, no ato de liberação do recurso público, com a explicação que se destinava a ‘‘custear viagens e invasões, inclusive de prédios públicos’’!
Após a revelação de tantos atos delituosos, o governo parece ter compreendido que era imprescindível acionar a Polícia Federal e o Ministério Público para que examinem em profundidade as atividades do MST que, infelizmente, não esconde que o seu objetivo é destruir a estrutura política em que vivemos.
Uma das formas de atingir esse objetivo é a destruição da atividade privada, começando pelo meio rural, com a invasão e depredação de propriedades de laboriosos agricultores e criadores.
A desestabilização do campo, dificultando a produção de alimentos e expelindo trabalhadores para as cidades, é o caminho óbvio capaz de exacerbar as crises urbanas. O fato mais extraordinário é que até há poucas semanas o governo dava a nítida impressão que pouco se importava com isso.
- ANTONIO DELFIM NETTO é deputado federal (PPB-SP), professor emérito da Faculdade de Economia e Administração da USP e ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento
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