Delação premiada da JBS e os privilégios dos irmãos Batista
Muito se discute na mídia sobre os privilégios obtidos pelos proprietários da JBS na delação premiada junto à PGR (Procuradoria Geral da República) e homologada pelo ministro Edson Fachin, do STF. Primeiramente, é preciso reconhecer que os irmãos Batista não estavam denunciando nenhum "gato pingado", mas grande parte da elite brasileira que ocupa o poder havia mais de 500 anos.
Esquecem esses críticos que o sucesso de Hitler com o seu projeto imundo de dominação da humanidade decorreu justamente da premiação concedida aos delatores, quando no ápice do nazismo até mesmo os filhos denunciaram seus próprios pais como forma de subirem de postos na hierarquia do poder.
A JBS, pelo que se sabe, obteve financiamentos lícitos e fez ótimos investimentos, especialmente, no exterior; todavia, continua com a dívida transparente junto aos órgãos públicos, especialmente o BNDES. Não fosse a brilhante advogada Janaina Paschoal descobrir que o dinheiro da propina proveniente de "investimentos" secretos da Petrobras e do BNDES em "campos secos" na África terem retornado ao Brasil, certamente, ainda hoje teríamos essa mesma quadrilha credenciada a assaltar os cofres públicos da nação.
A Odebrecht, por sua vez, superfaturou as obras por ter encontrado facilidades em troca de propinas milionárias na certeza da impunidade. Assim, não fossem os esforços na nova classe de delegados federais, procuradores da República e magistrados convencerem os delatores de que não poderiam pagar sozinhos pelos crimes cometidos, enquanto seus cúmplices pudessem continuar soltos, certamente delação alguma teria ocorrido e nenhum patrimônio teria sido recuperado.
A crítica, para ser justa, deve sempre ser acompanhada de uma razão. O que é mais importante para o país? Conhecer os autores dos crimes praticados pelos verdadeiros tiranos que destroem nosso país e recuperar o produto do roubo, ou morrer de inveja em saber que os irmãos Batista estão "passeando" pelo Central Park em Nova York?
Certamente, esses críticos fariam parte da quadrilha ou estariam com inveja do sucesso repentino dos irmãos Batista assim descrito por Charlie P. Kindelberger quando descreve o sentimento humano: "Não há nada tão perturbador para o bem-estar e bom senso de alguém quanto ver um amigo ficar rico", ou mesmo de Leandro Karnal: "Há aqueles que simplesmente não podem tolerar que você tenha o que eles desejam". Para conhecer se os críticos tem alguma razão, será preciso conhecer se as provas já juntadas ao processo serão ou não úteis para punir os criminosos.
É claro que entre os privilégios concedidos aos irmãos Batista, ameaçados de morte, consta obrigatoriamente a garantia de segurança de suas vidas e de suas famílias. Por evidente que, para as pessoas de bem, a delação premiada da JBS com certeza trará ao país benefícios imensuráveis. De forma que, para conhecer a que classe de pessoas pertence esses críticos será preciso rememorar as três espécies de criaturas humanas que habitam o planeta Terra: pessoas de bem, pessoas que se dão bem (vivem de privilégios) e pessoas que vivem ou podem se flagradas com o dinheiro ilícito.
A constatação de que ministros do STF e políticos tentam barrar as operações do Ministério Público e da Polícia Federal, especialmente, em não permitir a prisão de condenados em segundo grau, merece atenção a recente advertência feita pelo ministro Luiz Barroso, do STF: "A jurisprudência não pode ir mudando de acordo com o réu", de maneira que se mostra fácil conhecer em qual espécie de seres humanos podemos enquadrar os críticos da delação da JBS.
Ainda que possa haver alguns deslizes praticados pelos operadores da operação Lava Jato e outras tantas, é dever das pessoas de bem dar o maior apoio possível aos novos paladinos da Justiça e, ao mesmo tempo, renovar a esperança perdida em nossas instituições.
ANTONIO CARLOS CANTONI é advogado em Londrina
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