A saga dos dekasseguis (brasileiros que trabalham no Japão) começou há 16 anos com o sonho de prosperidade financeira dos descendentes de japoneses e coleciona histórias de sucessos e desilusões. Tudo ao custo de muito trabalho, solidão e adversidades culturais que, em certos casos, resultam em sofrimentos de ordem financeira e psíquica. Entre os protagonistas da primeira leva de brasileiros nikkeis que partiram para o Japão, a 30 mil quilômetros de distância, ainda no final da década de 90, está o fotógrafo londrinense Wilton Mitsuo Miwa, 30 anos. Ele passou seis anos na terra do Sol Nascente, juntou dinheiro para adquirir um imóvel ou abrir um negócio, mas ao retonar ao Brasil optou por outro investimento: a terapia.
  ‘‘Faço terapia há quatro anos e isso tem me ajudado muito a reencontrar o meu caminho e apaziguar aquela revolta que havia dentro de mim’’, diz o fotógrafo. O choque cultural, a inversão de valores, jornadas estafantes de trabalho (de 10 a 15 horas por dia) e até a discriminação são componentes que norteiam a trajetória de um dekassegui. ‘‘É uma rotina muito estressante no trabalho e se o cara não souber levar fica louco mesmo’’, relata o profissional liberal paulistano Alexandre Yoshio, 21 anos.
  Yoshio partiu aos 15 anos para o Japão e lá trabalhou em fábricas, casou e teve uma filha. Hoje trabalha no ramo de vendas de carro em sociedade com outros três amigos. De passagem por São Paulo (SP) e Londrina, está se preparando para investir em uma padaria. Mesmo tendo se adaptado bem à realidade e cultura japonesa, o jovem empresário dekassegui reconhece com uma ponta de preocupação que a experiência o deixou ‘‘diferente’’.
  O movimento dekassegui tem chamado a atenção de pesquisadores da área médica e sociológica, diante dos dramas enfrentados por estes trabalhadores. Até uma rede social de assistência a estes emigrantes surgiu nos últimos anos. Estima-se que aproximadamente 266 mil brasileiros estejam no Japão, sendo que só do Paraná seriam cerca de 40 mil, conforme a Associação Brasileira de Dekasseguis (ADB), com sede em Curitiba. A maior parte do Norte do Estado, sobretudo de Londrina e Maringá.
  Pelo montante que este nikkeis brasileiros movimentam em termos de divisas com destino ao Brasil – algo em torno de US$ 2 bilhões por ano, segundo dados do Banco Central – tem-se uma noção de que muitos estão cumprindo parte do seu objetivo, que é gerar riquezas para investir no seu país de origem. O presidente da ABD, vereador curitibano Rui Hara, não esconde a preocupação com a saúde dos dekasseguis. A entidade faz em média de 50 a 60 atendimentos por mês de dekasseguis residindo no Japão à procura de informações no Brasil. Mais de 20%, relacionados ao envio de currículos para a sua recolocação no mercado brasileiro.
  Embora considere que a situação no Japão tenha melhorado para os brasileiros, Hara revela que até quatro dekasseguis procuram por mês a entidade em busca de atendimento na área de saúde, incluindo psiquiátricos. ‘‘Temos um caso inclusive de internamento para tratamento psiquiátrico.’’

DEKASSEGUIS
EM NÚMEROS

- População do Japão: 170 milhões de habitantes

- Dekasseguis brasileiros no Japão: 265.962 pessoas trabalham atualmente nas fábricas japonesas

- Dekasseguis parananenses atualmente no Japão: cerca de 40 mil pessoas

- Tempo de permanência: de 5 a 10 anos

- Homens: 68%

- Mulheres: 32%

- Total de vistos expedidos para o Japão (Paraná):

* 1997 - 10.718 vistos
* 1998 - 5.764 vistos
* 1999 - 3.409 vistos
* 2000 - 7.087 vistos
* 2001 - 6.091 vistos

- O Banco Central Brasileiro estima que os dekasseguis movimentam para o Brasil cerca de US$ 2 bilhões por ano

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