Deixai vir a mim as criancinhas
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 21 de novembro de 2005
José Rafael Solano Durán 
Tive a possibilidade de ler, meditar e agora escrever sobre o texto da revista ''IstoÉ'' de 16 de novembro. O título cruel e insidioso chamava a atenção de qualquer um: ''Diário de um padre pedófilo''. Como padre que sou senti não somente curiosidade e preocupação, assim como desconfiança pois nas mãos de inúmeros leitores chegaria um artigo como estes. Depois da leitura fiquei pensando na vida das diferentes pessoas que ali são citadas, sua história, sua verdade. Isto é para mim muito mais significativo do que os baixos e vulgares comentários reais ou não que o artigo relata.
Pedofilia não é uma patologia exclusiva de um grupo determinado. A realidade desta patologia, como a de tantas outras, não escolhe pessoas determinadas, situações particulares, culturas ou ambientes restritos. Ela constitui a realidade estrutural de quem vivendo graves conflitos enfrenta uma desordem afetiva, sexual e psíquica.
O pedófilo é um ser humano, com sérios distúrbios pois além de agredir uma etapa maravilhosa do processo de ''ser pessoa'' como é a infância, ocasiona traumas na vida daquele que foi agredido. O pedófilo é carente não só de amor, como também da inocência necessária para contemplar a beleza da vida. Somente os inocentes podem se extasiar diante da pureza de um infante.
Sem dúvida nenhuma tantos e tantas vivem este drama. Hoje constatamos que o valor mesmo da vida perdeu aquela fascinação que não somente vem relatada no livro do Gênesis, como também nas lendas de culturas e povos. Não existe mais a bela figura do Jardim do Eden, agora Sodoma e Gomorra imperam de forma indiscriminada. Não quero ingenuamente apresentar excusas ou me desculpar por ser sacerdote e ver que os meus irmãos padres estão sendo acusados de verdadeiros opróbios de promiscuidade e laxismo sexual, mas também não quero que seja manipulada a informação, ao ponto de colocar no mural público o ''clero'' católico como um grupo restritamente pedófilo.
O apelo que o Papa Bento XVI fez desde aquela época quando era o prefeito da Congregação para a Fé, hoje continua ecoando no meio de todos nós: ''O ser humano em todas as condições deve ser chamado constantemente para os braços do Pai''. Não é que a Igreja tenha um direito canônico exclusivo, no qual se ampara para defender todo tipo de erros cometidos, o direito ilumina e contribui para um melhor e mais eficaz serviço pastoral. A Igreja sustentada na verdade procura que esta verdade apareça pois é desde ali que podemos entender a proposta de Cristo: ''Ide anunciai a Boa Nova a todas os povos''. Tentemos assumir uma posição clara e honesta de forma tal que nós mesmos possamos ser agentes da verdade. Em Cristo caminho verdade e vida.
JOSÉ RAFAEL SOLANO DURÁN é sacerdote da Arquidiocese de Londrina


