Qual a melhor forma de educar uma criança surda e inserí-la na sociedade? Essa foi uma das questões debatidas no Congresso Internacional sobre ''Educação para Surdos - Bilinguísmo: Práticas e Perspectivas'', realizado em Cotia - SP. Sabine Vergamini, fonoaudióloga e psicopedagoga, explica como funciona o bilinguísmo, segundo ela, aplicado com sucesso em vários países.

Como a família deve proceder quando percebe que o filho tem alguma deficiência auditiva?
O primeiro passo é proporcionar que essa criança adquira a Língua Brasileira de Sinais (Libras). E isso vai ser possível com o contato com adultos surdos usuários dela. Por meio da Libras vamos possibilitar que a criança receba todas as informações do mundo e se desenvolva como uma criança que ouve.

A partir de que idade esse trabalho pode ser feito?
Desde o momento que a surdez for diagnosticada, mesmo que seja na maternidade. Esses pais precisam receber um acompanhamento para melhor compreensão de como ajudar essa criança e estimular as funções visuais.

Como é o trabalho inicial?
É tanto no sentido de estimular essa criança para que ela adquira a língua de sinais de forma natural, como também possibilitar que os pais aprendam essa língua, sanar todas as dúvidas que possam ter, qual é a perspectiva de futuro para uma criança surda e como será seu desenvolvimento.

O objetivo é que a criança aprenda a se comunicar com a Libras e não a falar como um ouvinte?
As pessoas têm uma idéia de que a criança que vai usar a língua de sinais não vai desenvolver a fala. Não negamos esse direito, mas uma criança, para aprender a falar, precisa de um trabalho individual com fonoaudióloga, que leva muitos anos. Precisamos garantir que ela tenha um desenvolvimento como uma criança que ouve, e isso será possível através da língua de sinais.

Como funciona o ensino da criança surda?
Defendemos a proposta de uma educação bilíngue, onde ela aprende como primeira língua a libras, através da qual vai receber as informações e se comunicar. Depois ela vai aprender como segunda língua o português escrito, que ela vai usar para se comunicar com a sociedade ouvinte.

Vocês são contra a inclusão social?
Não. Nós defendemos a inclusão escolar depois que a criança já tem a identidade surda bem formada e fortalecida, ela não se sente menos capaz do que ninguém e isso vai possibilitar a inclusão social. Colocar no mesmo espaço físico da sala de aula, como muitas vezes vem sendo proposto, não é garantia de nada. Precisamos garantir que essa criança se sinta realmente parte do ambiente, que ela compreenda o que vem sendo dito. As pessoas confundem inclusão social com inclusão escolar, são coisas distintas. Incluir as pessoas é possibilitar que elas avancem, evoluam e os surdos precisam da língua de sinais para que isso aconteça.

Há escolas onde o professor dá aulas normalmente e tem o intérprete para o aluno surdo. A senhora acredita que isso funcione?
Nós desenvolvemos um trabalho como esse, mas a partir da quinta série. Precisamos garantir que a criança tenha seus pares. Quando eu incluo, eu nunca incluo uma criança sozinha, eu incluo um grupo de surdos em um grupo de ouvintes, o que faz uma enorme diferença também. Não acreditamos que isso dê certo desde o começo. Nós defendemos uma escola especializada.

mockup