Se é possível complicar, por que descomplicar? O que parece uma pergunta extraída da lógica hilária do saudoso e incomparável Chacrinha na realidade perde totalmente a graça quando aplicado a uma realidade tão séria quanto o ato de trazer à luz uma vida humana.
Ora, desde tempos imemoriais, ao longo dos séculos e em todas as civilizações, o parto sempre foi normal. Por que teria deixado de ser assim no Brasil de tempos recentes, onde, de cada grupo de 100 crianças, 40 morrem, em média, antes de completar um ano ?
Boa parte dessa realidade, claro, resulta de falta de educação, de saneamento básico, de subnutrição e, naturalmente, de complicações advindas do parto. Causa estranheza, no entanto, ela se mostre tão alarmante quando um sofisticado aparato é colocado pela modernidade à disposição da saúde das pessoas?
O tema comporta muitos questionamentos, um dos quais é justamente a forma deliberada e ostensiva com que a mulher, em nossa sociedade, é induzida por número incontável de profissionais médicos a ser submetida a cirurgia, em oposição à sua própria natureza. Na verdade eles atuam (de forma competente, admita-se), mediante pressão, seja sobre as pessoas ou sobre as instituições, neste caso em forma de lobbies, para sustentar o rendoso negócio.
Recusam-se, quase sempre, a ficar horas a fio acompanhando a parturiente em suas contrações, como exige o parto normal, preferindo recorrer, contra as leis da natureza e do bom senso, ao bisturi. Tornam, por diferentes razões, complicado e artificial o que deveria ser simples e normal. Consideram mais prático induzir a mulher a ser operada, sofrer pontos e ficar com os movimentos tolhidos durante vários meses a poupá-la de todo esse sofrimento e permitir que volte às atividades normais em apenas 24 horas. Para não falar do risco de contrair infecções e de ser vítima, até mesmo, de fatos tão lamentáveis quanto o esquecimento de instrumento cirúrgico no interior do seu organismo do paciente. Ou ainda de cair na esparrela do pagamento múltiplo, depois que se tornou moda a cobrança por fora em favor de anestesistas, organizados em verdadeiro cartel, além da instrumentação cirúrgica.
O que fazer diante dessa situação? A pergunta fica no ar, mas já é possível acenar com uma resposta: hoje já existe um profissional – o enfermeiro obstetra – perfeitamente qualificado e autorizado por lei (a Lei Federal 7498/86) para realizar a dar toda assistência ao parto normal. Mais: com tempo disponível e dotado de paciência para o exercício dessa nobre atividade. Não é por acaso que já existem casas de parto em São Paulo, Bahia, Ceará e alguns outros Estados onde, de cada 100 pacientes, apenas 10 deixam de ser submetidas a parto natural.
Eis aí uma reflexão que as mulheres brasileiras, principalmente, são chamadas a fazer. Por que se submeter a um processo que, além de invasivo e arriscado, é desnecessário na grande maioria das vezes?
O problema – cumpre assinalar – é maior na rede privada, uma vez que na rede pública apenas de 15% a 30% das parturientes são levadas à cirurgia. Porque o governo, que enxerga longe, já aprendeu e está aderindo à velha e sábia filosofia: o parto – queiram ou não os inimigos da natureza – é normal.
GILBERTO LINHARES é presidente do Conselho Federal de Enfermagem (Cofen)

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