A defasagem na tabela do Imposto de Renda para Pessoa Física (IRPF), apontada na Nota Técnica 131 do Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (Dieese), reforça a perversidade do modelo de tributação brasileiro. Sem uma política clara de correção de reajustes, o
sistema acaba por penalizar trabalhadores que têm rendimentos mais baixos – o que obviamente deveria ser o contrário.
Estudo do Dieese aponta que a defasagem na tabela do IRPF chegou a 61,24% desde 1996. Isso significa que o teto salarial para quem está livre da declaração deveria ser de R$ 2.758,46 e não os atuais R$ 1.710,78, o que faz com que trabalhadores que deveriam ser isentos sejam obrigados a contribuir com o Fisco. Não houve reajuste de valores em oito dos últimos 18 anos e nos dez anos restantes, a atualização foi inferior à inflação em seis calendários.
A partir da análise desses números, fica claro que a tabela merecia uma correção mais adequada. A cobrança de impostos deveria proteger famílias que têm rendimentos menores, o que indiretamente contribuiria para aumento da arrecadação porque cresceria o consumo. O atual modelo se mostra
totalmente inadequado, mas é reflexo da falta de educação financeira dos brasileiros, que não sabem calcular quanto pagam de impostos; e da falta de interesse pela vida pública. Se a população fosse mais acostumada a pressionar seus governantes, certamente não haveria uma grande defasagem como essa verificada.
É claro que o governo não promove reajustes na tabela do IRPF com intuito de aumentar a arrecadação, no que tem obtido grande êxito. No entanto, o problema é que todo esse recurso não retorna à população. Se impostos pagos fossem traduzidos em saúde e educação de qualidade, políticas de segurança pública e boa infraestrutura, talvez o atual modelo não pudesse ser questionado. No entanto, não é o que acontece. Fica o sentimento entre a opinião pública de que a arrecadação existe para sustentar a pesada máquina pública e está bem longe de beneficiar a população.

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