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Londrina

Opinião 5m de leitura Atualizado em 19/11/2021, 20:21

DEDO DE PROSA| Viola Quebrada

PUBLICAÇÃO
sábado, 20 de novembro de 2021

João Caldeirão
AUTOR autor do artigo

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- Mamãe, hoje a senhora não vai brigar nem discutir com o papai. 

- Posso saber por quê? Se ele chegar daquele jeito, não vai escapar de ouvir umas belas e boas verdades; como sempre, quando chega meio ou inteiro alterado, com a cachola cheia da boa, como ele costuma dizer.

- Mamãe, o papai está lá na sala-quarto acompanhado de mais dois homens e uma viola com ele, rabiscando suas cordas, parece que está desafinado. Então, já vi que ele andou passando pelo armazém do gordo (gordo foi o apelido, que eu e meus amigos colocamos nele) e já está de caneco cheio. 

- Mãe, ele mandou eu lhe avisar, que é pra você colocar mais água no feijão, que ele trouxe uma dupla sertaneja para jantar, e eles querem ver o nosso nenê cantar e ele quer, que você vai lá, que ele quer apresenta-los a você.

- Vem mãe, eu quero vê eles cantarem e tocar a viola que o papai comprou para eu.

- Mas, olha ó seu pai, quanta irresponsabilidade naquela cabeça, ele sabe da dificuldade que estamos passando (eu quase não tenho lavado roupa pra fora; e ele sem trabalhar por causa da sua doença: Quase não temos alimentos nem para nós e ele vem com mais essa? Problemas financeiros é que não falta pra nós. 

Imagem ilustrativa da imagem DEDO DE PROSA| Viola Quebrada
|  Foto: iStock
 

- Amanhã, mamãe, vou começar a engraxar sapatos, e tudo vai melhorar, a senhora vai ver.

- Deus te ouça meu filho.

- Tá bem, vou ver o que posso fazer com o que temos e vou lá conhecer essa dupla do seu pai, mas é mais por você que vou fazer esse sacrifício; haja paciência.

Depois que as apresentações foram feitas, um dos amigos do meu pai disse em tom de brincadeira: olha dona, a senhora não precisa se preocupar muito com o rango, um franguinho ao molho, uns bife a cavalo, ou uma feijoada, bistequinha de porco, também está de bom tamanho, nossas barrigas vão ficar satisfeitas e vão matar todas as lombrigas que estão morrendo de saudade de todas essas coisas, depois emendando disse: é tudo brincadeira dona, a gente come o que tiver, nem em nossa casa usufruímos de todas essas delícias. Estamos acostumados a matar a nossa fome é com pão e mortadela. 

Mas antes do banquete, vamos afinar esta violinha, e cantar umas modinhas, para pagar o seu trabalho e as pingas que tomamos e alegrar o seu filho que é um artista também, não é Joãozinho, e, ajeitando a viola em seu peito, deu início a afinação.

A viola não tinha tarraxa e sim cravelha. Do jeito que ele ia girando aquelas peças, eu pressentia, que coisa boa não ia acontecer; meu coração batia descompassado, querendo saltar pela boca, pois aquele sr compenetrado na afinação, não se deu conta de como apertava e girava aquelas cravelhas; acho que até a violinha gemia por dentro, tal era a força que suportava, pobre alma, eu sussurrava pra mim mesmo.

Acho que os goles que ele também tomara com meu pai, tinha lhe afetado a sua memória e ele não agia conforma a afinação pedia.

Foi só me ocorrer, aquele prenúncio de mau agouro, pra coisa acontecer... Um estalo repercutiu em todo ambiente que estávamos e assustou a todos nós. Minha mãe chegou ofegante e logo perguntando: o que foi isso gente?

Ninguém se pôs a responder! Foi então, que eu gaguejando e com voz embargada respondi:

- Não foi nada mamãe, foi só a violinha que não aguentou o braço do violeiro e quebrou, deixando ela em duas partes.

Ao vê-la assim dividida, meus pobres olhos começaram a se parecerem com a Foz do Iguaçu, rolando pelo meu rosto abaixo. Mamãe, probrezinha, nada comentou, só chorava comigo.

Os convidados do meu pai não sabiam como nos encarar e como explicar aquela tragédia. Acho que as cachaças que haviam consumido uns minutos antes desapareceram naquela hora. 

Nossa casa tinha dois cômodos, um aqui, outro acolá; naquela propriedade, tinha mais quatro famílias, eu chamava aquilo de cortiço, não sei se era correto.

Da porta da cozinha, vimos a dupla e despedindo do meu pai e se desculpando pelo acontecido, refutando a comida que mamãe fazia.

Após atravessar a pinguela que separava nossa casa da rua, não os vimos mais. Aquela pinguela era um perigo constante principalmente quando chovia.

Na valeta que ficava de frente de casa, corria uma enxurrada com toda a sujeita que descia desde lá de cima da rua.

Se alguém caísse naquela sujeira, enquanto atravessava a pinguela, só Deus para te salvar. Só uma tábua de trinta e cinco cm, lhe servia como ponte.

Meu pai, após o episódio veio até a mim e pra me consolar disse aos tropeços: Filho, me perdoa, eu juro que amanhã vou ver o que posso fazer para contornar o estrago que fiz hoje; essa violinha eu a comprei com o maior carinho e amor, por favor, não chore mais, se não meu coração doente não vai aguentar.

Pai, eu tenho um amigo que tem um pai, que é músico e costuma arrumar instrumentos quebrados, que ficam quase novos.

Amanhã eu vou leva-la pra ele dar uma olhada, é quase certeza que vai dar um jeito.

Dito e feito, na manhã seguinte, bem cedinho, lá estava eu no seu portão batendo palmas, e quem lá apareceu foi o meu amigo, que vendo aquele instrumento em dois pedaços me disse: já sei, você quer que meu pai conserte não é?

- Meu pai ele comprou para eu aprender a tocar, assim como você já tá tocando.

Ele pegou a viola e levou para seu pai ver; depois voltou dizendo: ele disse que vai tentar dar um jeito, que é pra você vir aqui dentro de uma semana.

Aquela semana durou um ano. Passado aqueles sete dias, lá fui eu de coração batendo que nem carpinteiro bate em sua lenha, ver a minha violinha querida. 

Ora minha surpresa, quem me trouxe ela, foi o pai do meu amigo e ao me entrega-la perguntou-me: e então, que tal, ficou do jeito que você queria? Respondi:

- Linda, linda, linda, nem como agradecer lhe, e quanto ficou seu conserto?

 – Meu trabalho é um presente para você. Ainda ele disse: Uma vez por semana, você vem aqui, que vou lhe dar umas aulas, pra que você toque com meu filho, só que ele toca trompete, mas eu vou ajuda-los a tocar juntos.

Meus olhos voltaram a chorar mais do que antes, e contei pra minha mãe, que ele não cobrou nada e que vai me dar umas aulas. Não vou cobrar, quando engraxar seus sapatos.

Seus olhos também choravam e ela falou: isso é maravilhoso filho, isso é por Deus.

Seis meses se passaram e eu fui selecionado para cantar no dia da entrega do diploma escolar. Cantei A morte da Caboclinha do ‘’Tonico e Tinoco’’. Quando comecei a cantar e a tocar, escuto por trás de mim: nem mais nem menos; esse era meu amigo do trompete, sem quase um ensaio fazermos. 

Passado vários dias, alugamos outra casa um pouco longe dali e ficamos sem contato, mais alguns meses ainda pra mais distante.

Minha mãe, continuou lavando roupa e eu fui engraxar sapatos numa padaria, e pra me arranjar até tive que trocar sopapos com garotos da minha idade, mais velhos, mais novos.

O tempo passou e eu fui deixando da viola, comprei um violão, mas a necessidade de trabalhar nas indústrias, também o encostei. 

Fiz o ginásio, Escola técnica e artes plásticas. Dez anos tinham se passado. De repente quem encontro? Meu amigo de infância. Teu pai tinha falecido e ele tocava na orquestra sinfônica. 

João Caldeirão é leitor da Folha de Londrina

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