DECISÃO POLÊMICA 'Lamento muito que tenha chegado a este ponto'
PUBLICAÇÃO
sábado, 14 de abril de 2012
Wilhan Santin <br>Especial para a Folha 
Aos 78 anos, o cardeal dom Geraldo Majella Agnelo é uma das vozes mais respeitadas dentro da Igreja Católica no Brasil. Tendo no currículo alguns anos de trabalho como secretário da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, no Vaticano, além de ter ocupado a presidência da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), em 2003; ele atualmente é arcebispo emérito de Salvador. Até completar 80 anos, pode votar e ser votado em um eventual conclave para eleger um novo papa. Esteve naquele que elegeu Bento 16, em 2005. Ao lado da médica Zilda Arns, morta em 2010 em terremoto no Haiti, fundou a Pastoral da Criança, em Florestópolis (Norte), em 1983.
De íntima ligação com Londrina, onde atuou como arcebispo de 1983 a 1991, o cardeal passa alguns dias na cidade para participar das comemorações dos 25 anos de ordenação sacerdotal do pároco da Catedral Metropolitana, monsenhor Bernard Gafá.
Sereno e sem a preocupação de medir palavras, recebeu a FOLHA para falar sobre a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), que liberou o aborto de fetos anencéfalos, o que ele classifica como ''o retrato de uma era em que predomina o egoísmo''; e os rumos da Igreja Católica no País.
Como o senhor avalia o fato de o STF liberar o aborto de fetos anencéfalos?
Eu lamento muito que tenha chegado a este ponto. Mas, por outro lado, vejo que é o retrato de uma era em que predomina o egoísmo. E justamente o egoísmo exacerbado incentiva as pessoas a olharem apenas para si próprias. O mais importante no ser humano é a fraternidade, que não deixa predominar a violência, o choque entre as pessoas. Hoje, por qualquer motivo, há o choque, o conflito, a violência, muitas vezes chegando à eliminação do outro. O egoísmo é a principal causa da violência.
Não é plausível o argumento de alguns ministros do STF, os quais, em seus votos, destacaram que não faz sentido levar adiante uma gravidez de um feto que não vai sobreviver, colocando em risco a vida da mãe?
Veja que já se coloca a mãe em conflito com filho, como um ato de egoísmo dela. Por outro lado vemos que ainda, graças a Deus, existe muita gente que tem o sentimento de afeição ao outro, da ajuda. Pais que têm filhos que nasceram com limitações e se dedicam de maneira heróica e com muito amor a eles não pensam, de jeito nenhum, em eliminar. Quero dizer que é uma situação que deve ser superada com amor.
O posicionamento da Igreja Católica não foi tímido nesta questão?
Não foi. Não tem católico que possa dizer que isso vai de acordo com a nossa fé. Nós não consideramos que cada um deve interpretar a palavra de Deus à sua forma. A palavra é clara: amar a Deus, amar o próximo, não fazer o mal, a vida é preciosa e inquestionável. Não podemos ser donos nem limitadores da vida humana. Outra coisa, essa decisão do STF abre um campo para amanhã praticarem eutanásia. Deus que deu a vida e Ele que deve tirar.
A Igreja incentiva a doação de órgãos que ocorre em caso de morte cerebral. Por analogia, o caso de anencéfalos não poderia ser visto da mesma forma?
Não é caso de morte cerebral. Aquela criatura que está na barriga da mãe tem vida. Apresenta uma deficiência, mas há vida.
Sobre a realidade da Igreja Católica no Brasil, fenômenos de vendas de livros e CDs, como o padre Marcelo Rossi, fazem com que as pessoas se aproximem da Igreja?
Eu não gosto desse tipo de trabalho, por causa de fulano que canta bem ou bonito ser tratado como Deus. Isso não ajuda a formar cristãos convictos, conscientes. Na semana de Páscoa, lemos a epístola de São Pedro que diz: ''O cristão deve saber dar as razões de sua fé''. A pessoa deve saber por que crê em Deus, por que faz o que Ele ensinou.
Mas não é um trabalho que ajuda as pessoas a se aproximarem ou voltarem para a Igreja Católica, que tem perdido fiéis?
Se ajudar, bem. Às vezes uma música ou uma palavra toca nas pessoas, mas nem todas têm a mesma consciência de sua fé, por isso não colocam em prática.
Em resumo, o senhor está dizendo que a forma de trabalhar de padres que atraem multidões não o agrada?
Não me agrada e não vejo que traga uma conversão autêntica, dentro de um contexto geral de receber aquilo que Cristo Jesus ensinou.
O catolicismo conservador não tem perdido parte de seu rebanho para igrejas neopentecostais?
Na verdade, há muitas pessoas que foram batizadas porque os pais ou avós as levaram à igreja quando criança. Mas não têm consciência sobre os motivos de sua fé. Então elas nunca pertenceram inteiramente à Igreja.
Mas a Igreja não considera o batismo um sacramento válido, mesmo para o bebê?
Claro que sim, mas há um vazio, que é a motivação da fé. Muitas vezes as pessoas não gostam de ser lembradas de seus deveres. Até fingem que não é com elas.
O senhor já conversou com o padre Marcelo Rossi?
Já o encontrei. Quando cheguei a Salvador, há 13 anos, era a época do aniversário da cidade, então o convidaram, nem sei quem o convidou e ele foi lá. Tá bom.
A Igreja está mais preocupada com a qualidade do que com a quantidade?
Certo. Jesus deu a sua vida por todos, mas o aproveitamento depende de cada um. Foi na cruz que ele deu a vida, não na facilidade. Muitos querem a facilidade.
Como um dos fundadores da Pastoral da Criança, como o senhor avalia o sistema de bolsas atualmente utilizado pelo governo brasileiro para fortalecer a infância?
Desde o começo sempre pensei que bolsas e cotas não incentivam. Acabam sendo vistas como privilégio. O caminho correto é dar educação de qualidade para todos. Com oportunidades para todos, não é preciso criar bolsas e cotas.
Acredita que um dia teremos um papa latino-americano?
Sim, e faço votos que isso aconteça.
O senhor já se imaginou papa?
Não. Eu nunca escolhi nada desde a minha primeira nomeação como padre, aos 24 anos. As coisas foram acontecendo. Até que um dia eu estava aqui em Londrina, tocou o telefone e fui chamado para ir ao Vaticano, trabalhar com João Paulo II.


