De volta ao trabalho e recuperado totalmente das diferenças de fuso horário e de paisagem social, entre os países do Grupo dos Sete, que acaba de visitar, e o Brasil - das crianças que quebram pedras para sobreviver - o presidente Fernando Henrique precisará pôr suas leituras em dia, antes de adotar qualquer decisão política.
Uma leitura inadiável é a da entrevista que seu velho amigo, o professor de filosofia José Arthur Giannotti, deu ao ‘‘Jornal do Brasil’’ de segunda-feira. Nela, graças à liberdade que o bom relacionamento com FHC lhe permite, o espírito crítico de Giannotti recomenda ao presidente que abandone a postura de despotismo e trate de ouvir a sociedade brasileira.
A entrevista, por sinal, é das mais simpáticas ao presidente, medida em que atribui os equívocos governamentais não a FHC, mas ‘‘ao Parlamento, à mídia, às instituições, à Igreja, ao Movimento dos Sem-Terra etc.’’ Seria interessante, aliás, conhecer os demais culpados pelos erros que fazem o governo funcionar mal e que o filósofo sepultou na cova rasa de um ‘‘etc’’, em suas recomendações. Todas as entidades mencionadas pelo amigo do presidente estariam ‘‘com suas reivindicações apenas no curto prazo’’.
Será isso mesmo? Pois apesar da opinião de Giannotti, nesse começo de 1997 ninguém cuidou mais e nem tão ansiosamente de reinvidicações de curto prazo quanto FHC. Tudo parou no País, para o governo conseguir aprovar, na Câmara, a reelegibilidade presidencial, em 1998. Ou será isso reivindicação de longo prazo?
De qualquer forma, o importante na recomendação do filósofo e amigo é o pedido para que FHC ouça a sociedade sobre os problemas que a afligem. Isso, porém, pode ter consequência desagradável para FHC, que teria de desistir de viajar mais vezes para fora que para dentro do Brasil, onde a realidade, em tantos lugares, não autoriza muito otimismo presidencial em relação ao Plano Real.
Entende-se a perplexidade em que está Giannotti. Afinal, o filósofo não sabe em quem acreditar, depois que FHC pediu aos brasileiros, amigos ou inimigos, para esquecerem o que dissera e escrevera antes de chegar à presidência. Por isso, com certeza, entre outros duvidosos da política presidencial, Giannotti ignora - como a entrevista mostra - se o presidente ainda é ou deixou de ser parlamentarista.
Ao suscitar tais dúvidas sobre FHC, seu amigo filósofo, evidentemente, deve achar que pode resolvê-las de modo satisfatório para o presidente, para si mesmo e para os brasileiros. Mas ele sabe que a fé, que se sustenta apenas na amizade e ignora os atos concretos das pessoas amigas que a despertam, causa, quase sempre, grandes decepções. Beethoven decepcionou-se com Napoleão, achando-o gente comum, quando ele se fez imperador. FHC, visto como déspota por Giannotti, não chega a ser um Napoleão. Está longe disso.

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